Projeto defendido pelo ministro Nuno Melo prevê uma fábrica ligada à Base Aérea nº 11 para produzir o A-29N Super Tucano em Portugal

Portugal deu novos sinais de que pretende transformar Beja em uma base de produção da Embraer na Europa. O ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, afirmou que o governo português está dando “passos largos” para instalar na região uma unidade voltada à produção do Super Tucano, avião militar fabricado pela empresa brasileira.

A futura fábrica deve ficar no perímetro da Base de Beja, junto à Base Aérea nº 11, uma das principais instalações militares de Portugal. A ideia é que o local possa produzir o A-29N Super Tucano, uma versão do avião adaptada aos padrões da OTAN, a aliança militar formada por países da Europa e da América do Norte.

O projeto ainda não significa que a fábrica já esteja pronta ou em operação. Mas mostra que Portugal e Embraer estão avançando em uma parceria mais profunda na área de defesa. Caso saia do papel, Beja poderá se tornar um ponto importante para a produção do Super Tucano em território europeu.

O que Portugal quer fazer em Beja

Segundo Nuno Melo, o governo português trabalha para instalar a unidade em uma área próxima de estruturas que, no passado, já tinham sido pensadas para produção aeronáutica. A escolha de Beja tem relação direta com a presença da Base Aérea nº 11 e com o espaço disponível para projetos industriais ligados à aviação.

Primeiro vôo de teste dos A29N Super Tucano após a entrega, em Alverca AB, Portugal (31 de agosto de 2025)

A proposta também faz parte de um plano maior de Portugal para fortalecer sua indústria de defesa. Em vez de apenas comprar aviões de fora, o país quer atrair produção, tecnologia, manutenção e empregos qualificados para dentro do próprio território.

Na prática, isso poderia transformar Beja em uma base da Embraer para atender Portugal e, futuramente, outros países europeus interessados no modelo. O governo português apresenta o projeto como uma oportunidade econômica, industrial e estratégica.

O que é o Super Tucano

O A-29 Super Tucano é um avião militar desenvolvido pela Embraer. Ele não é um caça pesado como os modelos usados em grandes combates aéreos, mas tem funções importantes para forças armadas.

O avião pode ser usado para treinar pilotos, vigiar áreas, apoiar tropas em solo e realizar missões militares menos complexas. Uma de suas vantagens é o custo de operação menor em comparação com aeronaves de combate mais caras e sofisticadas.

Dois EMB-314 Super Tucano da Força Aérea Brasileira equipados com dispensadores de bombas e lançadores de foguetes SUU-20.
Dois EMB-314 Super Tucano da Força Aérea Brasileira equipados com dispensadores de bombas e lançadores de foguetes SUU-20.

A versão A-29N foi pensada para países da OTAN. Isso significa que o avião recebe equipamentos e sistemas compatíveis com os padrões usados pelos aliados da organização, como comunicação, navegação e integração com operações militares conjuntas.

Portugal comprou 12 unidades do A-29N Super Tucano e se tornou o primeiro cliente dessa nova versão. Essa compra abriu caminho para uma aproximação ainda maior entre o governo português e a Embraer.

Portugal quer ir além da compra dos aviões

O ponto mais importante da negociação é que Portugal não quer apenas receber os aviões prontos. A intenção é participar da produção e da manutenção do Super Tucano em território português.

Isso mudaria o papel do país na relação com a Embraer. Portugal deixaria de ser apenas comprador e passaria a fazer parte da estrutura industrial da empresa na área de defesa.

A Embraer já tem presença forte em Portugal por meio da OGMA, empresa de manutenção aeronáutica localizada em Alverca. A OGMA é controlada pela Embraer em parceria com o Estado português. Com uma nova unidade em Beja, essa presença poderia ganhar mais peso na área militar.

Para a Embraer, fabricar ou montar o Super Tucano em Portugal também pode facilitar a entrada em novos mercados europeus. Em um momento em que vários países da Europa estão aumentando seus gastos militares, ter uma base industrial dentro do continente pode ser uma vantagem importante.

Por que Beja pode ganhar importância

Beja fica no sul de Portugal e já abriga uma base aérea estratégica. A instalação de uma fábrica ligada à Embraer poderia mudar a importância econômica da região.

Uma unidade de produção aeronáutica costuma gerar empregos técnicos e especializados. Também pode atrair fornecedores, empresas de manutenção, serviços de engenharia e centros de formação profissional.

Para o governo português, esse é um dos pontos centrais do projeto. A fábrica não seria apenas um investimento militar, mas também uma forma de levar empregos qualificados para uma região fora dos maiores centros econômicos do país.

Esse tipo de iniciativa pode ter efeitos indiretos. Além dos trabalhadores contratados diretamente pela fábrica, há demanda por transporte, segurança, logística, treinamento, peças, equipamentos e serviços de apoio.

Por que isso interessa à OTAN

A possível produção do A-29N em Portugal também deve ser vista dentro de um cenário maior. A Europa vive um momento de aumento dos investimentos em defesa, especialmente depois da guerra na Ucrânia e da pressão para que os países europeus tenham mais capacidade militar própria.

O Super Tucano não substitui caças modernos. Ele tem outra função. Seu papel está mais ligado a treinamento, vigilância, patrulha e apoio em missões nas quais não faz sentido usar aeronaves muito mais caras.

Para alguns países, esse tipo de avião pode ser interessante justamente por ser mais barato de operar e mais simples de manter. Ao adaptar o modelo aos padrões da OTAN, a Embraer tenta tornar o Super Tucano mais atraente para governos europeus.

Se Portugal conseguir produzir o avião em Beja, a Embraer poderá apresentar o modelo como uma aeronave brasileira com base industrial dentro da Europa. Isso pode ajudar a empresa em futuras negociações com países aliados.

O que ainda falta confirmar

Apesar das declarações positivas, a fábrica ainda não deve ser tratada como um fato consumado. O governo português já assinou uma carta de interesse com a Embraer e afirma que o projeto está avançando, mas ainda faltam etapas importantes antes do início da produção.

Entre os pontos que precisam ser confirmados estão o valor total do investimento, o calendário das obras, a quantidade de empregos, a capacidade da fábrica e o tipo exato de trabalho que será feito em Beja.

Também é necessário saber se a unidade fará a produção completa do avião, a montagem final, a instalação de equipamentos eletrônicos, a manutenção ou uma combinação dessas atividades.

A expressão usada pelo ministro indica uma ambição grande: produzir o Super Tucano em Portugal desde as etapas iniciais. Mas os detalhes industriais ainda precisam ser apresentados oficialmente.

Portugal pode se tornar vitrine europeia da Embraer

Se o projeto avançar, a fábrica em Beja poderá marcar uma nova fase na relação entre Portugal e Embraer. O país deixaria de ser apenas operador de aviões brasileiros e passaria a fazer parte da produção de uma aeronave militar voltada ao mercado europeu.

Para Portugal, isso significaria empregos qualificados, fortalecimento da indústria de defesa e maior importância dentro da cadeia militar da Europa. Para a Embraer, seria uma forma de ampliar sua presença em países da OTAN.

A decisão final ainda depende de investimentos, obras e acordos concretos. Mesmo assim, o movimento já mostra uma ambição clara: transformar Beja em uma base estratégica para a produção do Super Tucano na Europa.


Referências