Irã cobra até US$ 2 milhões por navio para permitir a passagem pelo estreito, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. A medida viola leis internacionais, irritou os EUA e pode criar um efeito dominó em outras passagens estratégicas.

O Irã começou a cobrar até US$ 2 milhões por navio para deixar embarcações passarem pelo Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial. A cobrança é ilegal segundo a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, provocou reações dos Estados Unidos e pode abrir um precedente perigoso: se der certo para o Irã, outros países podem tentar fazer o mesmo em outras passagens marítimas pelo mundo. Negociações entre EUA e Irã neste sábado, 11 de abril, em Islamabad, devem tratar do tema.

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz

O Estreito de Ormuz é uma passagem natural entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, no Oriente Médio. Em condições normais, cerca de 20% de todo o petróleo e gás do mundo passa por ali. É basicamente uma “estrada do mar” essencial para a energia global.

Desde meados de março de 2026, com a guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, a Guarda Revolucionária do Irã (o braço militar mais poderoso do regime) passou a cobrar dos navios até US$ 2 milhões por embarcação para cruzar o estreito. No final de março, o parlamento iraniano transformou isso em lei, aprovando o “Plano de Gestão do Estreito de Ormuz“.

Gráfico mostrando o número de trânsitos diários de navios pelo Estreito de Ormuz (Fevereiro até Março de 2026).
Gráfico mostrando o número de trânsitos diários de navios pelo Estreito de Ormuz (Fevereiro até Março de 2026).

O esquema funciona assim: os navios precisam enviar documentos sobre a carga, a tripulação e o destino para representantes ligados à Guarda Revolucionária. O pagamento pode ser feito em yuan (a moeda chinesa), por um sistema financeiro fora do controle dos EUA, ou em criptomoedas como bitcoin. Depois de pagar, o navio recebe um código por rádio e uma escolta militar para seguir por uma rota alternativa.

O Irã ainda criou faixas de preço diferentes dependendo do país de origem do navio. Aliados como China, Rússia e Índia pagam menos. Navios ligados aos Estados Unidos e Israel simplesmente não podem passar.

Segundo a Lloyd’s List, uma das maiores publicações do setor marítimo, pelo menos dois navios já pagaram a taxa em yuan, e nenhuma embarcação foi registrada usando a rota normal desde 15 de março.

O Irã pode fazer isso?

Não. As leis internacionais são bem claras nesse ponto. Existe uma convenção da ONU chamada UNCLOS, que funciona como uma espécie de “constituição dos oceanos” desde 1994. Ela garante que todos os navios têm o direito de passar livremente por estreitos internacionais, e que nenhum país pode cobrar taxas só pela passagem. Taxas só são permitidas quando o país oferece um serviço real, como pilotos para guiar o navio ou rebocadores.

Gráfico mostrando a participação do comércio mundial que passa pelo Estreito de Ormuz em 2026.
Gráfico mostrando a participação do comércio mundial que passa pelo Estreito de Ormuz em 2026.

O Irã assinou essa convenção, mas nunca a confirmou oficialmente, ou seja, nunca se comprometeu formalmente a segui-la. Teerã usa isso como desculpa para dizer que não precisa obedecer. Mas especialistas em direito marítimo explicam que a liberdade de navegação em estreitos é um costume tão antigo e universal que vale para todos, mesmo sem assinatura formal.

Tem gente que compara a situação com o Canal de Suez (no Egito) ou o Canal do Panamá, que também cobram de navios. Mas a comparação não faz sentido: esses canais foram construídos pelo ser humano, com bilhões em investimento, e precisam de manutenção constante. O Estreito de Ormuz é uma formação da natureza. Ninguém cavou, ninguém construiu, ninguém financia a existência dele.

Existe um caso intermediário: a Turquia cobra taxas nos estreitos de Bósforo e Dardanelos. Mas faz isso com base em um tratado internacional (a Convenção de Montreux, de 1936), com valores muito menores e prestando serviços reais de manutenção e pilotagem. Não é nada parecido com uma cobrança unilateral de US$ 2 milhões sob ameaça militar.

Por que o mundo inteiro está preocupado

O problema maior não é o dinheiro em si, mas o exemplo que isso cria. Analistas econômicos alertaram que a cobrança daria ao Irã controle sobre uma rota essencial para o comércio de energia e traria um novo risco para a economia mundial.

Cerca de 80% de tudo que o mundo compra e vende viaja por mar, e boa parte passa por estreitos naturais. Se a cobrança em Ormuz virar algo aceito, o que impediria a China de cobrar pedágio no Estreito de Taiwan? Ou a Indonésia no Estreito de Malaca? Um especialista francês em direito marítimo alertou que o precedente poderia levar a China a restringir a navegação no Estreito de Taiwan.

E o impacto já está sendo sentido. O tráfego de navios no estreito caiu de mais de 100 por dia para uma média de apenas 10 em abril. Seguradoras de navios já avisaram que vão aumentar os preços, e esse custo extra vai acabar chegando no bolso do consumidor, encarecendo combustível, produtos e fretes.

A reação confusa de Trump

A resposta dos Estados Unidos foi, no mínimo, contraditória. No dia 8 de abril, quando um jornalista da ABC News perguntou se ele aceitaria o pedágio iraniano, Trump sugeriu que os EUA poderiam criar uma “parceria” com o Irã para administrar a cobrança juntos.

A fala pegou todo mundo de surpresa. Mas no dia seguinte, Trump mudou de ideia e publicou nas redes sociais que o Irã deveria parar com a cobrança imediatamente.

Do outro lado do estreito, Omã, que divide as águas com o Irã, rejeitou a ideia e disse que já assinou todos os acordos internacionais que proíbem esse tipo de taxa.

As negociações que podem decidir tudo

As negociações diretas entre Estados Unidos e Irã estão marcadas para este sábado, 11 de abril, em Islamabad, capital do Paquistão. A delegação americana será liderada pelo vice-presidente JD Vance, acompanhado pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner.

O Irã apresentou uma lista de dez exigências para encerrar a guerra. Entre elas, está o reconhecimento do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz e o direito de cobrar pedágio, alegando que o dinheiro seria usado para reconstruir o país. Se o sistema funcionar a pleno vapor, as estimativas apontam para uma receita de US$ 600 a US$ 800 milhões por mês.

Porém, as negociações já estão ameaçadas porque o Irã considera que os ataques israelenses ao Líbano violam o cessar-fogo.

O que está em jogo

Aceitar o pedágio iraniano não seria só uma questão de dinheiro. Seria abrir mão de uma regra que existe há séculos e que garante que os mares são livres para todos. Se essa regra cair em Ormuz, pode cair em qualquer lugar. E quem paga a conta, no final, é o mundo inteiro.