Após ataques a petroleiros no Iraque e plantio de minas no estreito mais estratégico do mundo, o regime iraniano transforma o fluxo global de petróleo em arma de guerra. O barril do Brent supera US$ 100.

O Irã escalou sua estratégia de guerra nesta quinta-feira (12) ao atacar petroleiros em águas iraquianas, plantar minas no Estreito de Ormuz e ameaçar o fluxo de energia que abastece o mundo. O novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, emitiu seu primeiro pronunciamento público desde o início do conflito e prometeu manter o estreito bloqueado enquanto os bombardeios americanos e israelenses continuarem.

Comunicado do novo líder supremo do Irã Mojtaba Khamenei exibido em TV estatal em Teerã, março de 2026
Um comunicado lido na TV estatal, atribuído ao novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, é exibido em Teerã em 12 de março de 2026. (AFP)

O que aconteceu

O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã está no 13º dia. Ele começou em 28 de fevereiro de 2026, quando os EUA e Israel lançaram ataques aéreos coordenados contra instalações militares, nucleares e de liderança iranianas. No ataque inicial — batizado de Operação Epic Fury — o aiatolá Ali Khamenei foi morto. Seu filho, Mojtaba Khamenei, assumiu o posto de líder supremo, mas, segundo avaliação israelense, também teria sido ferido nesse mesmo ataque. Ele não apareceu pessoalmente em câmera ao transmitir seu primeiro pronunciamento nesta quinta: um locutor leu o texto ao vivo na televisão iraniana, com uma foto de Khamenei na tela.

Na madrugada desta quinta-feira, dois petroleiros foram atacados perto do porto de Basra, no Iraque. É o primeiro ataque a navios em águas iraquianas desde o início da guerra. O Iraque confirmou a morte de ao menos uma pessoa e o resgate de 38 tripulantes. Em resposta, o país suspendeu as operações em todos os seus terminais petrolíferos.

Navio-tanque com óleo iraquiano em chamas nas águas territoriais do Iraque, perto de Basra, em março de 2026
Um navio-tanque estrangeiro com óleo combustível iraquiano foi danificado após pegar fogo em águas territoriais do Iraque, perto de Basra, em 12 de março de 2026. (Reuters)

O gargalo do mundo

Para entender o que está em jogo, é preciso conhecer o Estreito de Ormuz. Trata-se de uma passagem marítima de apenas 33 km de largura no ponto mais estreito, com duas faixas de navegação de cerca de 3 km cada. Por esse corredor passavam, antes da guerra, cerca de 20 milhões de barris de petróleo bruto por dia — o equivalente a aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Além disso, volumes expressivos de gás natural liquefeito (GNL) também dependem dessa rota para chegar à Europa e à Ásia.

No primeiro dia do conflito, a Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) transmitiu avisos por rádio a todos os navios no estreito, proibindo a passagem. O Irã não declarou formalmente um bloqueio naval — o que configuraria um ato de guerra pela lei internacional —, mas o efeito prático foi o mesmo. O tráfego de petroleiros caiu 70% nos primeiros dias e logo despencou a praticamente zero.

Minas no estreito

A escalada mais recente e preocupante veio com o plantio de minas navais no estreito. Segundo fontes de inteligência citadas pela imprensa americana, o Irã havia colocado menos de dez minas até 9 de março. Os ataques com minas continuaram nos dias seguintes.

Minas navais são armas assimétricas por natureza: baratas, fáceis de lançar — podem ser colocadas por mini submarinos, pequenos navios ou até barcos de pesca — e difíceis de localizar. O arsenal de minas do Irã é estimado em milhares de unidades. E o ponto mais alarmante é que o Irã não precisa minar todo o estreito. Basta a ameaça de minagem para elevar os custos de seguro marítimo a níveis proibitivos, com efeito equivalente a um bloqueio total. Cada mina não detonada precisa ser localizada, identificada e neutralizada individualmente, o que torna a reabertura do estreito um processo que pode levar semanas ou até meses após o fim das hostilidades.

Ataques a navios se multiplicam

Além das minas, o Irã manteve ataques diretos a embarcações. Até a noite de quarta-feira (11), ao menos 16 navios haviam sido atingidos na região, segundo o Centro Conjunto de Informações Marítimas supervisionado pela Marinha dos EUA. Com os ataques desta quinta-feira, o número de embarcações danificadas no conflito subiu para pelo menos 19.

Nesta quinta-feira, um navio porta-contêineres foi atingido próximo à costa de Dubai. O Irã também atacou um campo petrolífero saudita com drone, provocou um incêndio perto do aeroporto internacional do Bahrein e lançou ataques nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait. Tudo isso um dia após o Conselho de Segurança da ONU aprovar uma resolução exigindo o fim dos ataques iranianos aos vizinhos do Golfo.

Petróleo a US$ 100 — e a ameaça de US$ 200

O impacto econômico já é visível. O preço do barril de Brent, referência internacional do petróleo, voltou a superar a marca de US$ 100 nesta quinta-feira, uma alta de cerca de 38% em relação ao valor no início da guerra. A Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas de petróleo — o maior volume já liberado — para tentar segurar os preços. Os EUA vão contribuir com 172 milhões de barris desse total, provenientes da Reserva Estratégica de Petróleo americana.

Ainda assim, a IRGC alertou que não passará “nem um litro de petróleo” pelo Estreito de Ormuz e que o mundo deve se preparar para o barril a US$ 200.

A lógica por trás dos ataques

A estratégia iraniana tem uma lógica, embora desesperada. Os ataques americanos e israelenses já destruíram grande parte da capacidade militar convencional do Irã. Sem força aérea e com a frota naval convencional muito reduzida, o regime passou a usar sua principal carta restante: a capacidade de paralisar a economia global.

A aposta é que, ao causar dor econômica suficiente — principalmente aos países árabes do Golfo, à Europa e aos próprios EUA —, os custos políticos da continuação da guerra se tornem insustentáveis para o presidente Trump. Ao atacar Dubai, Riad e outras capitais do Golfo, o Irã tenta forçar esses governos a pressionar Washington por um cessar-fogo.

O problema é que o cálculo está falhando. Em vez de pressionar os EUA a recuar, os países do Golfo estão tomando posição contrária ao Irã. A estratégia iraniana está isolando Teerã na própria região que tentava usar como alavanca de pressão.

O que pode vir a seguir

Três cenários são discutidos por analistas neste momento. O primeiro é uma intensificação dos ataques americanos contra as capacidades iranianas de minagem e ataque a navios — incluindo depósitos de minas, bases de lanchas rápidas e mini submarinos. O segundo é a escolta de comboios de petroleiros pelo estreito, como os EUA fizeram no final dos anos 1980 — o presidente Trump já sinalizou essa possibilidade. O terceiro, e mais sombrio, é que o bloqueio se consolide e a reabertura do estreito leve meses, mesmo após um eventual cessar-fogo.

A Organização Marítima Internacional (OMI) anunciou que convocará uma sessão extraordinária na próxima semana para discutir as ameaças ao tráfego marítimo na região.

Uma linha muito fina

O que se vê hoje no Golfo Pérsico é um regime que, encurralado e com opções limitadas, optou por ameaçar a espinha dorsal da economia global. Não se trata mais de um conflito regional. O Estreito de Ormuz é um ponto de passagem do qual dependem países na Ásia, na Europa e nas Américas — direta ou indiretamente, pelo preço dos alimentos, dos combustíveis e de praticamente tudo que é produzido.

A linha entre uma estratégia desesperada e uma espiral suicida é muito fina. E quanto mais fragmentado estiver o comando iraniano, mais difícil se torna saber até onde esse conflito pode chegar.


Fontes

Associated Press (AP) · NPR · Al Jazeera · ABC News · CBS News · Euronews · Times of Israel · Wikipedia · Congressional Research Service (Congress.gov)