Nesta terça-feira, 7 de abril, Trump publicou que “toda uma civilização morrerá hoje à noite” caso o Irã não ceda às exigências americanas. Na prática, o presidente dos EUA não está falando de armas nucleares, mas sim da destruição total da infraestrutura civil iraniana: usinas de energia, pontes, ferrovias e telecomunicações. O plano, segundo o próprio Trump, poderia ser executado em apenas 4 horas. O prazo dado por ele vence às 21h (horário de Brasília) desta terça.
O ultimato que colocou o mundo em alerta
A guerra entre Estados Unidos e Irã está no seu 38º dia. Desde o começo do conflito, no final de fevereiro, Trump vem pressionando o Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, uma passagem marítima por onde circula cerca de um quinto de todo o petróleo do mundo. Com o estreito fechado, os preços globais de energia dispararam.
No domingo de Páscoa, Trump escreveu que terça-feira seria “o dia das centrais elétricas e das pontes no Irã”. Na segunda-feira, em coletiva na Casa Branca, ele foi ainda mais direto: disse que os EUA têm um plano para destruir todas as pontes e todas as usinas do Irã em 4 horas. E completou dizendo que “o país inteiro pode ser eliminado em uma noite, e essa noite pode ser amanhã”.
Nesta terça, a mensagem ficou ainda mais grave. Trump publicou na Truth Social: “Toda uma civilização morrerá hoje à noite, para nunca mais ser restaurada. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai acontecer.”

Por que não se trata de armas nucleares
Apesar da gravidade das palavras, a hipótese de armas nucleares pode ser descartada por vários motivos. Primeiro, o próprio Trump detalhou os alvos: pontes, usinas, ferrovias e poços de petróleo. São alvos de infraestrutura, não nucleares.
Segundo, um ataque nuclear contaminaria aliados dos EUA na região, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e Kuwait, países que estão investindo bilhões na economia americana.
Terceiro, a justificativa central da operação (chamada Epic Fury) é justamente impedir que o Irã tenha armas nucleares. Usar esse tipo de arma contra o país seria uma contradição que destruiria qualquer argumento de legitimidade.
E quarto, os EUA simplesmente não precisam de armas nucleares para causar o tipo de destruição descrita. O arsenal convencional americano é mais do que suficiente para colapsar toda a infraestrutura de um país em poucas horas.
O que acontece quando a infraestrutura civil é destruída
O que Trump está sinalizando é a destruição sistemática de tudo o que mantém a sociedade iraniana funcionando. Sem energia elétrica, não funcionam hospitais, sistemas de água, refrigeração de alimentos e medicamentos, semáforos, nem comunicações. O Irã tem quase 90 milhões de habitantes. Um apagão total seria, por si só, uma crise humanitária de proporções enormes.
As pontes são as artérias de transporte do país. Sem elas, cidades inteiras ficam isoladas e sem abastecimento. Na semana passada, a destruição da grande ponte B1, nos arredores de Teerã, já mostrou o impacto que poucas bombas de precisão podem ter. Trump também já mencionou outros alvos como poços de petróleo, plantas de dessalinização de água e ferrovias.
É por isso que ele disse que jogaria o Irã “de volta à idade da pedra”. A frase é retórica, mas o plano é real e já está parcialmente em execução, com ataques a linhas de transmissão e ferrovias já realizados nos últimos dias.
A questão dos crimes de guerra
Destruir toda a infraestrutura civil de um país configura, pelo direito internacional, um ataque indiscriminado, o que é considerado crime de guerra. O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que atacar infraestrutura civil é proibido pelo direito internacional, mesmo que parte dela possa ter uso militar.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também classificou como “ilegal e inaceitável” qualquer ataque a infraestruturas civis, como instalações de energia, traçando um paralelo com os ataques russos à rede elétrica da Ucrânia.
Ironicamente, os próprios Estados Unidos já condenaram a Rússia por atacar centrais elétricas ucranianas no inverno, com o Departamento de Estado classificando esses ataques como crimes de guerra. Quando perguntado se o plano contra o Irã não seria a mesma coisa, Trump respondeu que não está preocupado com isso e que o “verdadeiro crime de guerra é permitir que o Irã tenha uma arma nuclear”.
Quem realmente manda no Irã agora?
Existe uma camada extra de complexidade nessa crise. Segundo um memorando diplomático baseado em inteligência americana e israelense, o líder supremo Mojtaba Khamenei estaria inconsciente e em estado grave na cidade de Qom, incapaz de participar de qualquer decisão do regime.
Mojtaba é filho de Ali Khamenei, o líder supremo anterior, que foi morto no ataque que deu início à guerra em 28 de fevereiro. Mojtaba teria sido ferido no mesmo ataque que matou seu pai, sua mãe, sua esposa e um de seus filhos. Desde que assumiu o cargo, no início de março, ele não apareceu em público nenhuma vez. As únicas comunicações atribuídas a ele foram declarações escritas lidas na televisão estatal, sem áudio ou vídeo.
Se o líder supremo está realmente incapacitado, quem comanda o Irã? Segundo analistas, o controle de fato pode estar nas mãos da Guarda Revolucionária (IRGC). Isso cria um paradoxo perigoso: Trump ameaça destruir o Irã se ele não aceitar um acordo, mas do outro lado pode não haver ninguém com autoridade real para negociar.
O que o Irã ameaça fazer em resposta
O Irã não ficou parado. A Guarda Revolucionária emitiu uma ameaça direta: caso os EUA ataquem a infraestrutura civil iraniana, o IRGC prometeu responder com ataques mais devastadores e em escala muito maior. Há também ameaças de atacar a infraestrutura petroquímica dos países do Golfo, como Emirados, Bahrein e Kuwait, para privar os americanos e seus aliados de petróleo e gás por anos.
Segundo a Al Jazeera, o Irã rejeitou a proposta de cessar-fogo de 45 dias e enviou uma contraproposta com 10 cláusulas pedindo o fim permanente da guerra. Trump também rejeitou a contraproposta iraniana. Ambos os lados parecem encurralados pelas suas próprias posições.
Os cenários para esta noite
Com o prazo se encerrando, existem três possibilidades principais.
A primeira é que Trump adie o prazo mais uma vez. Ele já fez isso várias vezes desde o início da guerra, ganhando tempo para novas rodadas de mediação. Países como Paquistão, Egito e Turquia vêm atuando como mediadores.
A segunda é que Trump cumpra a ameaça e ordene ataques massivos contra a infraestrutura civil, mergulhando o Irã no escuro e desencadeando uma crise humanitária gravíssima.
A terceira, e a que Trump diz querer, é um acordo de última hora. Mas com o Irã rejeitando propostas e o próprio líder iraniano possivelmente incapacitado, as chances parecem cada vez menores.
Segundo o economista Mohit Kumar, do banco Jefferies, uma escalada no curto prazo é “muito provável”, mas seria direcionada a ganhar vantagem nas negociações, não a um conflito prolongado. Ainda assim, o que está em jogo não é uma disputa diplomática comum. São as vidas de 90 milhões de pessoas e a estabilidade energética do planeta. Nesta noite, o mundo saberá se a retórica de Trump ficou apenas nas palavras ou se ele de fato está disposto a transformar uma civilização milenar em escuridão.

