A Ucrânia lançou, em março de 2026, a campanha de drones de maior alcance de toda a guerra contra a Rússia, atingindo os principais portos de exportação de petróleo russos no Mar Báltico repetidamente em menos de duas semanas. Segundo cálculos da Reuters, os ataques paralisaram cerca de 40% da capacidade de exportação de petróleo da Rússia — a maior interrupção de fornecimento de petróleo na história moderna do país. E o pior momento possível para Putin: quando o petróleo russo havia acabado de se tornar mais valioso do que em anos.


A Rússia estava quase sem dinheiro — e o petróleo salvou

Para entender o que aconteceu em março de 2026, é preciso voltar alguns meses. A Rússia estava enfrentando uma crise financeira silenciosa. As receitas com petróleo caíram quase 24% em 2025, segundo dados do Ministério das Finanças russo analisados pelo Meduza. Em dezembro de 2025, o barril do petróleo russo chegou a ser vendido abaixo de 40 dólares, enquanto o orçamento do país havia sido planejado com base em 59 dólares por barril. A diferença saía do fundo de emergência do país, o chamado Fundo de Riqueza Nacional, que havia encolhido de 113 bilhões de dólares antes da guerra para cerca de 52 bilhões em janeiro de 2026, de acordo com o Euromaidanpress. Enquanto isso, os gastos militares chegavam a quase 200 bilhões de dólares por ano.

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A conta simplesmente não fechava. E então, no final de fevereiro de 2026, os Estados Unidos atacaram o Irã. O Estreito de Ormuz — um corredor marítimo estreito no Golfo Pérsico por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo mundial — foi bloqueado. O mercado entrou em pânico, e o preço do barril de petróleo disparou de 70 para mais de 116 dólares, conforme confirmado pelo Al Jazeera.

Para a Rússia, que vendia seu petróleo com desconto enorme para China, Índia e Turquia por causa das sanções ocidentais, essa alta de preços foi uma virada inesperada. De repente, o petróleo russo se tornou uma das poucas alternativas disponíveis no mercado global. Putin tinha uma janela de oportunidade. Só precisava exportar.


O drone que a Rússia não sabe derrubar

Enquanto Putin contava com os dólares do petróleo, a Ucrânia há anos trabalhava em exatamente o tipo de arma capaz de fechar essa torneira. Desde 2024, o país vinha desenvolvendo e operando o drone de ataque chamado Liutyi, palavra ucraniana que significa “feroz”. O Liutyi é um drone desenvolvido pela indústria de defesa ucraniana para atingir alvos a mais de 1.000 quilômetros de distância, com uma carga explosiva de até 75 quilos, conforme detalhado pela Ukrainska Pravda. Registros abertos de inteligência apontam que ataques confirmados chegaram a distâncias entre 1.300 e 1.800 quilômetros dentro do território russo.

Drone de ataque de longo alcance ucraniano An-196 Liutyi visto dentro de uma instalação de produção / Foto de fonte aberta.
Drone de ataque de longo alcance ucraniano An-196 Liutyi visto dentro de uma instalação de produção / Foto de fonte aberta.

O detalhe mais importante do Liutyi não é o alcance, mas a forma como ele navega. Segundo análises do Defense Magazine, o drone usa um sistema de navegação híbrido que combina orientação inercial com visão de máquina. Na prática, isso significa que ele conhece as coordenadas do alvo antes de decolar e não depende de sinais de rádio externos para chegar até lá. Os sistemas de guerra eletrônica russos foram construídos para bloquear sinais — mas não conseguem bloquear um drone que voa sem sinal nenhum.

Isso explicou o que aconteceu a seguir.


Dez dias que pararam o petróleo russo

Na madrugada de 22 para 23 de março de 2026, drones ucranianos percorreram mais de 900 quilômetros e chegaram ao porto de Primorsk, no Mar Báltico, perto de São Petersburgo. Um depósito de combustível pegou fogo e a maioria dos pontos de carregamento do terminal foi atingida, junto com dois petroleiros ancorados no local. A fumaça era visível até na Finlândia, do outro lado do Golfo da Finlândia.

Dois dias depois, foi a vez de Ust-Luga. Esse porto é o maior terminal de exportação de petróleo da Rússia no Mar Báltico, capaz de movimentar cerca de 700.000 barris por dia, segundo o Moscow Times. Drones ucranianos chegaram ao terminal e causaram incêndios que se espalharam por vários tanques de armazenamento. As chamas subiram a ponto de serem visíveis a dezenas de quilômetros.

Na noite seguinte, os drones atacaram a refinaria de Kirishi, também na região de Leningrado. A refinaria é uma das maiores do país, processando entre 20 e 21 milhões de toneladas de petróleo por ano, e as unidades principais de processamento foram danificadas. E então os drones voltaram para Ust-Luga. E depois para Primorsk. E depois para Ust-Luga de novo.

Até o final de março, conforme registrado pelo Kyiv Independent, Ust-Luga havia sido atingida pelo menos cinco vezes em dez dias. A Reuters classificou o resultado como a maior perturbação de fornecimento de petróleo da história moderna da Rússia, com aproximadamente 2 milhões de barris por dia fora de operação — 40% da capacidade total de exportação do país.

E os portos continuavam paralisados até início de abril. Segundo o Ukraine Today, a aceitação de cargas em Ust-Luga foi suspensa e a proibição para ferrovias entregarem combustível foi estendida até 14 de abril.


Uma lógica que a história já provou funcionar

O que a Ucrânia está fazendo não é improviso. É uma estratégia com precedente histórico. Em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, os países aliados perceberam que bombardear fábricas alemãs não era suficiente — os alemães conseguiam reconstruir. Então passaram a atacar os depósitos e refinarias de combustível. Em poucos meses, aviões alemães foram abandonados nos aeródromos por falta de gasolina e tanques pararam nas estradas sem diesel. A guerra terminou cerca de um ano depois.

A Ucrânia está aplicando a mesma lógica, mas com drones fabricados no próprio país, a uma fração do custo de um avião de guerra.

O resultado é visível nos números. Semanas antes dos ataques, o petróleo havia se tornado a salvação financeira do Kremlin: as receitas com exportações chegaram a 2,45 bilhões de dólares em uma única semana — o maior valor desde 2022, de acordo com análise citada pelo Charter97. Depois dos ataques, esses números despencaram. O volume exportado caiu pela metade em questão de dias.

Do outro lado, Zelensky sinalizou que está disposto a parar os ataques à infraestrutura de energia russa — mas apenas se a Rússia fizer o mesmo com as cidades e usinas ucranianas. Pela primeira vez desde o início da guerra, a Ucrânia não está pedindo ajuda. Está negociando com cartas na mão.


Conclusão

No início de 2026, a Rússia estava quebrando lentamente, sustentada por um fio fino de receitas de petróleo. Quando esse fio finalmente ganhou valor real com a crise no Oriente Médio, a Ucrânia cortou esse fio — exatamente quando ele mais importava. A pergunta que fica no ar não é mais se um país menor pode enfraquecer uma potência maior sem um exército equivalente. Os portos em chamas no Mar Báltico já responderam isso.