O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou a renúncia na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, cerca de 60 horas depois de o Banco Central tirar do ar o Ueno Bank, um banco digital que movimentava boa parte dos pagamentos do país. O caso pesou porque o banco tinha ligação com o próprio presidente, e quem devia fiscalizá-lo tinha sido chefe dele.

Resumo rápido:

  • Madrugada de 3 de novembro: o Banco Central paraguaio intervém no Ueno Bank, com cerca de 2,9 milhões de clientes
  • Peña foi sócio do grupo dono do banco até março de 2025, segundo a Associated Press
  • 5 de novembro: Peña entrega a renúncia, e a Câmara aprova o juízo político por unanimidade
  • Depósitos de até 228,3 milhões de guaranis (cerca de US$ 38 mil) por pessoa têm garantia
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O que aconteceu com o Ueno Bank?

Na noite de segunda-feira, 2 de novembro, o conselho do Banco Central votou por unanimidade colocar o Ueno em regime de resolução, e os clientes ficaram sem saques e transferências na terça. A Associated Press informa que o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do mínimo legal. Segundo o Infobae, o índice chegou a cerca de 6%, quando a lei exige 12%.

O tamanho do estrago vem do papel que o banco tinha. Ele contava com cerca de 3 milhões de clientes e, de acordo com a Associated Press, guardava entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em dinheiro público, incluindo cerca de US$ 380 milhões do fundo de pensões e saúde do Estado. A Bloomberg Línea calcula que os depósitos do Estado eram 29% do total do banco no fim de junho.

Sede do Banco Central do Paraguai, órgão que fiscaliza os bancos do país. Foto: Cmasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
Sede do Banco Central do Paraguai, órgão que fiscaliza os bancos do país. Foto: Cmasi / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A sede do Banco Central, em Assunção, concentrou a crise. O órgão é quem confere as contas dos bancos e pode mandar parar quando algo passa do limite, e é aí que a história política começa.

Por que o presidente foi atingido?

Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, já tinha comandado uma versão anterior do Ueno antes de assumir o cargo, em 2023, segundo a Bloomberg Línea. Ele diz que se declarou impedido de decidir sobre o banco. Quem o nomeou foi Peña, e a Associated Press registra que o presidente foi sócio do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. O banco nega que Peña tenha sido acionista, e ele diz que vendeu sua parte.

Com a intervenção, Peña pediu a saída de Carvallo, que já tinha assinado a renúncia e ficou para conduzir o processo. A Promotoria mandou prender oito pessoas ligadas ao banco, entre elas o presidente da instituição e o executivo-chefe, e dois diretores foram detidos ainda na terça. As acusações são de quebra de confiança e outros crimes, e ainda não houve julgamento.

Como o presidente caiu em 60 horas?

No dia 4, 35 parlamentares da oposição e dissidentes do Partido Colorado, o partido de Peña, pediram o juízo político. A virada veio de dentro do partido: segundo o Infobae, o ex-presidente Horacio Cartes, chefe do Partido Colorado, anunciou apoio ao processo, e o apoio dele era essencial para chegar ao quórum de 41 dos 80 deputados.

Na quinta, o ministro do Interior, Enrique Riera, entregou a renúncia ao Congresso por volta das 13h30. Menos de uma hora depois, a Câmara aprovou por unanimidade, com 78 votos, o pedido de juízo político, segundo o ABC Color. A diferença pesa: com a renúncia aceita, Peña ficaria com uma vaga de senador vitalício, e a oposição rejeita isso. Destituído, ele perderia o benefício.

A situação ainda não está fechada. Conforme o Infobae, o Congresso não aceitou a renúncia e seguiu com o processo, e o Senado decide o desfecho: para destituir Peña são necessários 30 dos 45 votos. O vice-presidente, Pedro Alliana, foi escolhido pelo Partido Colorado para assumir e completar o mandato, que vai até agosto de 2028. Peña é acusado de conflito de interesses e de favorecer o banco, mas não foi condenado.

Quem paga a conta?

O Congresso aprovou em uma sessão uma lei para adiantar a cada cliente até 40 salários mínimos, cerca de US$ 19.000. Já a garantia do Banco Central cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, o que deve alcançar cerca de 97% dos depositantes, segundo a Associated Press. Quem tem saldo maior, como empresas e o próprio Estado, não tem garantia de reembolso integral e entra na fila da liquidação, que pode levar anos.

Isso inclui o dinheiro da previdência. O Estado que devia vigiar o banco e depositou dinheiro público nele corre o risco de ficar com o prejuízo, e quem paga é o contribuinte.

O Paraguai já passou por isso: nos anos 1990, mais da metade dos bancos do país quebrou. A Argentina viveu o Corralito em 2001, e o Brasil teve o confisco da poupança no Plano Collor, em 1990. No Brasil, o Fundo Garantidor de Créditos cobre até R$ 250 mil por pessoa em cada instituição. O caso paraguaio mostra o limite dessa proteção: ela vale por pessoa e por banco, e não ajuda quando quem devia fiscalizar o banco estava do lado dele.