Desde o início da guerra entre Irã e Israel, em fevereiro de 2026, cerca de metade dos mísseis balísticos iranianos lançados contra o território israelense carregam ogivas do tipo cluster — aquelas que se abrem no ar e despejam dezenas de pequenas bombas sobre áreas urbanas. Onze desses mísseis já penetraram as defesas israelenses. A pergunta que todo mundo faz é: por que um sistema de defesa aérea considerado o mais avançado do mundo não consegue pará-los?
O que é uma ogiva cluster?
Para entender o problema, é preciso primeiro entender a arma.
Um míssil balístico convencional carrega uma única carga explosiva concentrada na ponta. Quando é interceptado, a ameaça acaba ali. Um míssil com ogiva cluster funciona de forma completamente diferente: em vez de uma única bomba grande, ele carrega dezenas de bombas menores em seu interior, chamadas de submunições ou bomblets.
Quando o míssil se aproxima do alvo, a ogiva se abre em pleno voo — geralmente a grande altitude. A ponta do míssil literalmente descasca, gira sobre si mesma e libera as submunições no ar. Elas caem por gravidade e explodem no impacto com o solo.

Dependendo do tipo de míssil, cada ogiva pode liberar entre 20 e 80 submunições. O raio de dispersão pode cobrir uma área extensa. Uma única análise da CNN de dois ataques iranianos com cluster confirmou impactos espalhados por áreas de 11 e 13 quilômetros, respectivamente — atingindo residências, comércios, vias públicas e parques.
O dano de cada submunição individual é limitado: não derruba prédios nem penetra abrigos reforçados. Mas espalhadas sobre uma área urbana densa, o efeito é devastador em termos de pânico, múltiplos pontos de impacto simultâneos e, principalmente, bomblets não detonadas que ficam no chão funcionando como verdadeiras minas terrestres.
Como o Irã chegou a essa tecnologia?
O programa de mísseis balísticos do Irã tem décadas de desenvolvimento. Durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, Teerã usava mísseis Scud soviéticos contra cidades iraquianas. Nos anos seguintes, com assistência tecnológica da Coreia do Norte, o Irã desenvolveu toda uma nova família de mísseis de médio e longo alcance.
O Shahab-3, derivado do norte-coreano Nodong, fez sua estreia pública em 1998 e se tornou a espinha dorsal do arsenal iraniano. A partir dele, surgiram variantes aprimoradas, como o Ghadr e o Emad — este último com sistema de navegação mais preciso.

O salto mais importante, porém, veio com o Khorramshahr, desenvolvido a partir de tecnologia do míssil norte-coreano Hwasong-10. O Khorramshahr tem alcance de cerca de 2.000 km e é capaz de carregar a maior carga útil de qualquer míssil balístico iraniano. A versão mais recente, o Khorramshahr-4 — também chamado de Kheibar — foi apresentada publicamente em 2023 e é o modelo que tem sido mais associado aos ataques com ogivas cluster na guerra atual.
É o Khorramshahr-4 que pode carregar até 80 bomblets em uma única ogiva.
O problema da interceptação
Aqui está o nó do problema para Israel.
Contra um míssil balístico convencional, a lógica da defesa aérea é simples: você o detecta, calcula a trajetória e dispara um interceptador contra ele. Se o interceptador acertar, a ameaça é neutralizada. Um alvo, uma interceptação.
Com um míssil cluster, essa lógica quebra. O míssil precisa ser interceptado antes de liberar suas submunições. Uma vez que a ogiva se abre e os bomblets são ejetados, um único alvo se transforma em dezenas de projéteis independentes caindo em alta velocidade sobre uma área ampla.
Segundo o especialista em mísseis Tal Inbar, consultor de empresas de defesa israelenses, mesmo uma interceptação direta do míssil balístico nem sempre garante a neutralização total: em alguns casos, o míssil é atingido, mas os bomblets já foram liberados — ou são lançados pelo impacto da interceptação.
Depois que as submunições estão no ar, tentá-las derrubar individualmente é um exercício extremamente difícil. O Iron Dome, principal sistema de defesa de curto alcance de Israel, foi projetado para foguetes e artilharia — não para dezenas de pequenas bombas caindo simultaneamente em alta velocidade.
Quatro camadas de defesa — e nenhuma é suficiente sozinha
Israel possui um dos sistemas de defesa aérea em camadas mais desenvolvidos do mundo. Na prática, quatro recursos são usados contra os mísseis iranianos.
Arrow 3: Faz interceptações fora da atmosfera, enquanto o míssil ainda está no espaço, antes de reentrar. É a opção ideal contra mísseis cluster, pois elimina a ameaça antes que a ogiva se abra. O problema: é extremamente caro e os estoques são limitados.

Arrow 2: Atua dentro da atmosfera, em alta altitude. Segunda linha de defesa depois do Arrow 3.
David’s Sling: Intercepta mísseis de médio alcance em altitude intermediária.
Iron Dome: Voltado para foguetes de curto alcance e artilharia. Pode tentar engajar submunições individuais após a dispersão, mas com eficácia limitada contra múltiplos bomblets caindo ao mesmo tempo.
O desafio econômico é real. Um míssil iraniano custa uma fração do que custam os interceptadores israelenses. Quando esse míssil carrega uma ogiva cluster, o custo-benefício para o Irã melhora ainda mais: um único lançamento pode obrigar Israel a usar múltiplos interceptadores ou lidar com dezenas de bomblets individuais.
Os números da guerra atual
Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro de 2026, o Irã lançou aproximadamente 250 mísseis cluster contra Israel — cerca de metade do total de mísseis balísticos disparados. Desses, 11 penetraram as defesas israelenses, segundo análise do jornal Haaretz.
Para comparação: no conflito anterior, em meados de 2025, apenas três mísseis cluster chegaram ao território israelense — e cada um carregava cerca de dez bomblets. Agora, os mísseis carregam muito mais.
Um dos ataques documentados, em março de 2026, foi registrado por um fotógrafo jordaniano a partir de Amã. As imagens mostraram pelo menos 70 bomblets se espalhando sobre a área metropolitana de Tel Aviv. Sete bomblets atingiram áreas habitadas ao longo de um trecho de 27 quilômetros. O restante caiu em áreas abertas. Não houve vítimas naquele ataque — mas em outro, em 9 de março, dois trabalhadores da construção civil que não estavam em abrigo morreram.
Uma arma proibida — mas não para quem está lutando
As munições cluster são proibidas pela Convenção sobre Munições Cluster, adotada em 2008. Hoje, 111 países são signatários do tratado, incluindo a maioria das nações europeias e membros da OTAN.
Irã, Israel e Estados Unidos não assinaram a convenção. Nenhum dos três está juridicamente impedido de usar esse tipo de armamento.
O quarto caminho: destruir antes de lançar
Diante das limitações dos sistemas de interceptação, militares israelenses e americanos têm apostado em uma quarta estratégia: atacar a capacidade de lançamento na origem.
A lógica é direta: se o míssil não sai do chão, não há submunição para interceptar. Isso significa ataques a bases de mísseis, instalações de produção e lançadores móveis iranianos.
É uma corrida contra o tempo — e a guerra está revelando que mesmo as defesas aéreas mais sofisticadas do mundo têm limites. O Irã parece estar deliberadamente explorando esses limites.
Fontes consultadas: Al Jazeera, CNN, Haaretz, The War Zone, Military Watch Magazine, Wikipedia

