Decisão anunciada pelo gabinete da primeira-ministra Sanae Takaichi nesta terça-feira (21) encerra uma das marcas mais visíveis do pacifismo imposto ao país após a Segunda Guerra Mundial e abre a indústria militar japonesa para até 17 aliados.

Por quase 80 anos, o Japão produziu alguns dos equipamentos militares mais avançados do planeta — e tinha proibido a si mesmo de vender qualquer um deles fora de casa. Essa era acabou nesta terça-feira.

O gabinete da primeira-ministra Sanae Takaichi oficializou a mudança mais profunda da política de defesa japonesa desde 1945: a partir de agora, o país pode exportar armamento pesado, incluindo caças, mísseis, navios de guerra e tanques. A decisão libera a indústria militar do país para voltar ao mercado internacional depois de décadas vendendo apenas para um cliente — o próprio governo japonês.

Por que o Japão se proibiu de vender armas

A origem da proibição está na Constituição de 1946, escrita sob forte influência americana após a derrota japonesa na Segunda Guerra. O Artigo 9 é o trecho central: nele, o Japão abre mão da guerra como instrumento de política e proíbe ter forças armadas com capacidade de atacar outros países. É por causa desse artigo que, até hoje, o Japão não tem oficialmente exército, marinha ou força aérea — apenas as “Forças de Autodefesa”, nome escolhido justamente para caber dentro da regra.

Em cima dessa base, dois governos fecharam ainda mais a porta:

  • 1967: o premiê Eisaku Sato proibiu vendas a países comunistas, a nações sob sanções da ONU e a qualquer lado envolvido em guerra.
  • 1976: o premiê Takeo Miki ampliou a proibição para qualquer destino, com uma única exceção — o compartilhamento de tecnologia militar com os Estados Unidos, aliado de defesa do Japão desde o pós-guerra.

O resultado: durante décadas, fábricas japonesas produziram tanques, submarinos e caças para um único comprador, as Forças de Autodefesa.

A mudança não caiu do céu

A decisão desta terça é o último passo de um processo que começou há mais de dez anos:

  • 2014: o premiê Shinzo Abe liberou exportações não letais em cinco categorias (resgate, transporte, vigilância, alerta e limpeza de minas).
  • Dezembro de 2023: o governo de Fumio Kishida autorizou a venda de mísseis Patriot fabricados no Japão sob licença americana, para repor estoques dos EUA esvaziados pela guerra na Ucrânia.
  • Abril de 2026: Takaichi derruba a divisão em cinco categorias e passa a classificar o material militar em apenas dois grupos — armas (navios, tanques, mísseis) e equipamentos que não são armas (radares, sensores).

O que empurrou o Japão para essa virada

O cenário ao redor do Japão mudou. A China ampliou sua marinha, pressiona Taiwan e envia navios com frequência cada vez maior às Ilhas Senkaku, um arquipélago no Mar da China Oriental que o Japão administra e a China reivindica. A Coreia do Norte testa mísseis balísticos e desenvolve armas nucleares. E a Rússia, além de travar a guerra na Ucrânia, pressiona o Japão no norte, na disputa pelas Ilhas Curilas.

Há ainda o fator americano. Donald Trump tem cobrado dos aliados que paguem mais pela própria defesa e condicionado a proteção dos EUA a contrapartidas. A leitura do governo japonês é direta: não dá mais para depender só dos Estados Unidos, e ter uma indústria de defesa forte e com clientes no exterior virou questão de sobrevivência estratégica.

O arsenal que o Japão agora pode vender

A imagem pacifista esconde uma das indústrias militares mais avançadas do mundo. Entre os destaques:

Fragatas classe Mogami — navios de guerra multifunção da Mitsubishi, com 5.500 toneladas e 133 metros, projetados com formas inclinadas que dificultam a detecção por radar. Carregam canhão de 127 mm, mísseis antinavio e antiaéreos, e operam com tripulação de apenas 90 pessoas graças à alta automação. Em abril, o Japão fechou com a Austrália um contrato de cerca de US$ 6,5 bilhões para 11 Mogami aprimoradas — a maior exportação militar da história japonesa.

Fragata japonesa da classe Mogami chegando ao porto de Sasebo após entrar em operação.
Fragata japonesa da classe Mogami chegando ao porto de Sasebo após entrar em operação.

Submarinos classe Taigei — submarinos de 84 metros movidos por motores diesel e baterias de lítio, tecnologia em que o Japão saiu na frente. São silenciosos, ágeis e pensados para operar nos estreitos entre as ilhas japonesas.

Míssil antinavio Tipo 12 — a versão atualizada salta de 200 km para cerca de 1.000 km de alcance e pode ser disparada de terra, de navios, de submarinos e de aviões.

Outras plataformas: o avião de patrulha marítima Kawasaki P-1, o cargueiro Kawasaki C-2 (concorrente do europeu A400M), o tanque Tipo 10 da Mitsubishi e o blindado sobre rodas Tipo 16.

Os limites da nova regra

A abertura não é total. O Japão só poderá exportar para uma lista de 17 países aliados, e cada venda de arma precisa ser aprovada pelo Conselho de Segurança Nacional, comandado pela própria primeira-ministra. Continua proibido vender para países em guerra ativa — o que, na prática, deixa a Ucrânia de fora.

A reação internacional

A China classificou a medida como “militarização imprudente” e prometeu “resistir firmemente”. Dentro do Japão, a oposição pacifista acusa o governo de violar o espírito do Artigo 9.

Já Austrália, Filipinas e Indonésia receberam o anúncio com entusiasmo: veem na indústria japonesa uma opção mais previsível em um momento em que os Estados Unidos, sob Trump, deixaram de ser um fornecedor totalmente confiável.


O que termina nesta terça é, na prática, o Japão pacifista desenhado após a Segunda Guerra. O país que por décadas se recusou a vender uma única arma fora de casa passa a ser fornecedor militar de aliados em três continentes — sinal de que o Japão entende que o mundo ao seu redor mudou, e que ficar parado deixou de ser uma opção.