O comentarista americano Tucker Carlson afirmou no domingo (2) que o presidente Donald Trump pode decidir até o dia 7 de novembro se usa uma arma nuclear contra a montanha Pickaxe, no Irã. Nenhuma autoridade confirmou o plano. A conta técnica, porém, mostra por que a ideia aparece: as bombas convencionais americanas dificilmente chegam às salas escondidas ali, e só uma arma nuclear de centenas de quilotons teria chance de alcançá-las.
Resumo rápido:
- Carlson disse em 2 de novembro que Trump pode decidir até 7 de novembro sobre um ataque nuclear à montanha Pickaxe, a 2 km de Natanz
- A instalação fica a pelo menos 100 metros de profundidade, segundo o Instituto de Ciência e Segurança Internacional
- Os EUA não confirmam o plano; o governo americano diz que não comenta planos militares e mantém todas as opções abertas
O que Carlson disse, e o que está confirmado
Segundo a Anadolu, reproduzida pelo Express Tribune, Carlson escreveu na rede X que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pressiona Trump e liga para ele todos os dias sobre o assunto. O vice-presidente JD Vance e o enviado especial Steve Witkoff, de acordo com ele, defendem um acordo com o Irã. Carlson também previu que a Terceira Guerra Mundial seria inevitável depois da primeira bomba. A International Business Times observa que ele não apresentou documentos nem autoridades identificadas.
O que existe de registrado é mais modesto. No sábado (31 de outubro), em Mar-a-Lago, Trump disse que um ou dois alvos nucleares iranianos podem ser atingidos em 10 minutos e citou a Pickaxe, sem indicar que uma arma nuclear tenha sido autorizada. O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que não há decisão final sobre retomar os ataques. Em entrevista à Newsmax em 15 de outubro (relatada pela International Business Times), Trump havia dito que não usaria armas nucleares contra o Irã. O Irã nega qualquer atividade nuclear no local.
A montanha fica a cerca de 2 km do complexo de Natanz, o principal centro de enriquecimento de urânio do país, e a obra começou em 2020, depois de uma explosão que o governo iraniano chamou de sabotagem, segundo a Al-Monitor. A inteligência de Israel acredita que o Irã levou ali parte do urânio enriquecido e centrífugas avançadas, segundo reportagens da imprensa americana. Como os inspetores da ONU não têm acesso, ninguém de fora confirma o que há lá dentro.
Por que as bombas comuns não bastam?
A maior bomba antibunker dos Estados Unidos é a GBU-57, de cerca de 13,6 toneladas, lançada por bombardeiros B-2. Em junho de 2025, 14 delas foram usadas contra Fordow e Natanz. Sua penetração depende do material: dados divulgados pela Força Aérea falam em cerca de 60 metros em terra e 18 em concreto, e o granito é bem mais duro. A Pickaxe está a pelo menos 100 metros de profundidade.

O Instituto de Ciência e Segurança Internacional informa que Washington pode ver a MOAB, bomba convencional ainda maior, como opção, de acordo com reportagens da imprensa americana, mas ela foi pensada para explodir na superfície. O mesmo instituto identificou um provável duto de ventilação e imagens de satélite mostraram entradas cobertas de terra. Em Fordow, as bombas entraram justamente pelos dutos, e as entradas foram soterradas. Fechar entradas, porém, não encerra o programa: os túneis podem ser reabertos.
Que bomba nuclear serviria?
A mais citada é a B61-12, a mais moderna do arsenal americano, lançada por caças F-35 ou bombardeiros B-2. Sua força é escolhida antes do voo, entre 0,3, 1,5, 10 e 50 quilotons (1 quiloton equivale a mil toneladas de explosivo). Para comparação, a bomba de Hiroshima tinha cerca de 15 quilotons.

Uma explosão enterrada transmite muito mais energia ao solo, mas a B61-12 não tem casco reforçado para perfurar rocha. O único modelo americano feito para entrar no solo é a B61-11, com 340 a 400 quilotons. Mesmo ela, em testes no Alasca em 1998, penetrou apenas alguns metros. Alcançar as salas da Pickaxe exigiria, portanto, uma arma desse porte explodindo a poucos metros de profundidade. A ideia de uma bomba pequena e cirúrgica não fecha a conta.
Há ainda uma ogiva de cerca de 5 quilotons, instalada em mísseis Trident de submarinos desde o fim de 2019. Ela foi criada para responder a um uso tático de armas nucleares pela Rússia, não para destruir bunkers. E há um risco: nos radares da Rússia e da China, um míssil lançado de submarino parece um ataque estratégico.
Quem pode mandar usar a bomba?
Só o presidente dos Estados Unidos, sem aprovação do Congresso. Ele consulta o secretário de Defesa e o chefe do Estado-Maior, escolhe uma opção do plano de guerra e se identifica com códigos. Os militares podem questionar se a ordem é legal, mas não podem anulá-la.
O calendário também pesa. Segundo a International Business Times, a rede Axios informou em 1º de novembro que Netanyahu quer a retomada dos ataques depois das eleições legislativas americanas de 3 de novembro, enquanto Trump prefere dar mais tempo à negociação.
O que um ataque nuclear causaria?
A primeira consequência seria a contaminação. Uma explosão de 400 quilotons a poucos metros de profundidade lançaria rocha radioativa na atmosfera e, conforme o vento, a poeira poderia chegar ao Golfo Pérsico, de onde vem a água de usinas de dessalinização. O Qatar depende delas quase por completo, e Kuwait e Bahrein em cerca de 90%. Carlson falou em risco para cerca de 100 milhões de pessoas, mas, segundo a International Business Times, ele não apresentou avaliação científica.
A segunda seria quebrar um tabu: desde Nagasaki, em agosto de 1945, nenhuma arma nuclear foi usada em combate. A terceira é o precedente. Em novembro de 2024, o presidente russo Vladimir Putin assinou uma doutrina nuclear que reduz o limite para o uso dessas armas, e poderia alegar o mesmo direito contra um alvo militar na Ucrânia. Para o Irã, analistas avaliam que o efeito seria o contrário do pretendido: reforçaria a convicção de que só a bomba garante a sobrevivência do regime.
O que se sabe até agora é pouco: falas de Trump sobre destruir a montanha, uma alegação de Carlson e uma decisão que, em tese, cabe a uma pessoa só. O prazo citado, 7 de novembro, é depois de amanhã.

