A Rússia lançou seu maior ataque do ano no Donbas enquanto a Ucrânia já havia destruído a estrutura que deveria sustentá-lo.
Em 21 de março de 2026, a Rússia lançou a maior ofensiva terrestre do ano contra o Cinturão de Fortalezas — a cadeia de cidades fortemente defendidas que protege o coração do Donbas, a região industrial no leste da Ucrânia rica em minas de carvão, aciarias e infraestrutura energética que Putin quer controlar desde o início da invasão em 2022. Dois dias depois do lançamento, um deputado do próprio partido de Putin foi à televisão explicar por que o avanço seria lento. Não foi um deslize de comunicação. Foi o Kremlin — sede do governo russo em Moscou — administrando expectativas sobre uma operação que já havia saído dos trilhos antes do primeiro assalto.
O que a maioria dos relatos sobre essa ofensiva não explicou é que o problema não surgiu em março. Ele foi construído ao longo de semanas anteriores, em movimentos que pareciam separados e que, vistos juntos, revelam por que o exército russo chegou ao momento decisivo sem o que havia guardado para ele.
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O que a Ucrânia fez em fevereiro antes de alguém perceber
A contraofensiva ucraniana no sul da Ucrânia, em fevereiro de 2026, foi tratada pela maioria dos analistas como vitória territorial — recuperar terreno é bom. Mas esse não era o ponto central da operação.
Ao avançar de forma agressiva no sul, a Ucrânia criou uma crise que obrigou a Rússia a reagir imediatamente. Para reagir, Moscou precisou acionar unidades militares que estavam reservadas especificamente para a ofensiva de primavera. Uma dessas unidades não havia aparecido em combate desde agosto de 2025 — mantida fora de circulação por meses, esperando o momento certo. Foi ativada não para atacar, mas para cobrir a brecha que a Ucrânia havia aberto. Uma das peças mais valiosas da ofensiva foi queimada em reação, não em ataque.
405 baixas antes do primeiro disparo oficial
Em 19 de março, dois dias antes do lançamento oficial da ofensiva, forças russas lançaram um assalto em direção ao Cinturão de Fortalezas pela direção de Lyman — cidade no nordeste do Donbas que serve de ponto de entrada para as linhas defensivas ucranianas. De aproximadamente 500 soldados enviados — parte deles com apenas uma semana de treinamento —, 405 foram mortos ou feridos. No vocabulário militar, mortos e feridos em combate são chamados de baixas. A taxa ficou próxima de 80% em uma única investida.
O número foi reportado pelo general Oleksandr Syrskyi, comandante-chefe das forças armadas ucranianas, e confirmado pelo Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), centro analítico militar sediado em Washington que acompanha o conflito diariamente com base em fontes abertas e inteligência ocidental. O ISW apontou que a Rússia cortou o treinamento básico de combatentes de um mês para uma semana a fim de repor perdas com rapidez — o que explica a vulnerabilidade das tropas enviadas. Na avaliação do instituto, as forças russas dificilmente tomarão o Cinturão de Fortalezas em 2026, mesmo que obtenham ganhos táticos pontuais a custo elevado.
A semana em que a Ucrânia fechou a torneira do petróleo russo
Entre 22 e 27 de março, drones ucranianos atacaram em sequência os dois maiores portos de exportação de petróleo da Rússia no Mar Báltico — Primorsk, em 22 de março, e Ust-Luga, em 25 de março — e depois a refinaria de Kirishi (KINEF), uma das maiores do país, na região de Leningrado. A refinaria responde por 6,6% do volume total de refino da Rússia e fica a mais de 800 quilômetros da fronteira ucraniana.

Segundo cálculos da Reuters baseados em dados de mercado e de fontes da indústria, os ataques cortaram cerca de 40% da capacidade total de exportação de petróleo russa — o equivalente a 2 milhões de barris por dia fora de operação. Um barril é a unidade padrão de medida do petróleo no mercado internacional, equivalente a cerca de 159 litros. A agência descreveu o episódio como a interrupção de fornecimento mais grave na história moderna da Rússia, o segundo maior exportador de petróleo do mundo.
O momento é o que transforma o ataque em algo de outra magnitude. Desde o final de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel estavam em conflito com o Irã, o que fechou rotas marítimas estratégicas no Oriente Médio usadas para transportar petróleo. Com menos petróleo circulando no mercado global, o preço disparou: o Brent — principal índice de referência do preço do petróleo bruto no mundo — havia subido de aproximadamente US$ 70 por barril no final de fevereiro para US$ 108 em 26 de março. Com menos petróleo disponível no mercado global, quem tem estoques para vender acumula ganhos extraordinários. A Rússia estava na posição perfeita para lucrar exatamente no momento em que mais precisava de receita para financiar a ofensiva — e foi nessa janela que a Ucrânia derrubou os portos.
A ferrovia em crise e a cobertura diplomática
A logística militar russa depende da ferrovia estatal para mover munição, combustível e equipamento para o front. O sistema enfrenta uma crise financeira desde o início de 2026: o governo exige que a empresa priorize remessas militares, o que elimina o transporte comercial e destrói a receita de que ela precisa para operar. A guerra precisa da ferrovia. A ferrovia está sendo destruída pela guerra.
No campo diplomático, os Estados Unidos vinham tentando mediar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia — papel que o presidente Donald Trump assumiu como prioridade desde o início de seu governo. Em 24 de março, Trump declarou publicamente que os dois países estavam próximos de um acordo. Dois dias depois, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky contradisse diretamente: não houve progresso real e as exigências russas permanecem as mesmas. Ainda assim, a Rússia não parou de atacar em nenhum momento. Já em 2022, Moscou negociou com a Ucrânia na Turquia enquanto reorganizava suas tropas na fronteira — quando terminou de se reposicionar, as conversas simplesmente pararam. O ISW, em sua avaliação de 30 de março, confirmou que a ofensiva está estagnada na direção de Sloviansk — cidade que é o ponto de entrada norte do Cinturão de Fortalezas — desde aproximadamente 22 de março, sem avanços territoriais significativos.
O indicador mais revelador do estado das forças russas não está no mapa. Moscou chegou ao ponto de pressionar mulheres de países da Ásia Central cumprindo penas em prisões russas a servir no exército em troca de liberdade. As famílias dessas mulheres enviaram cartas pedindo ajuda para resistir ao recrutamento. Não é o comportamento de um exército em posição de força. É o comportamento de um exército que aceita qualquer pessoa disponível.
Fontes consultadas: Reuters, ISW, Al Jazeera, Kyiv Independent, Euromaidan Press, Critical Threats, The Moscow Times, Bloomberg, Kyiv Post

