Enquanto os EUA gastam bilhões e o Irã é bombardeado diariamente, a Rússia assiste de longe e lucra como nunca. Vladimir Putin não disparou um único tiro nesse conflito. Mas é quem mais está colhendo frutos.
O petróleo russo nunca valeu tanto
Para entender por que a Rússia está lucrando, é preciso primeiro entender o que é o Estreito de Ormuz. Trata-se de um corredor marítimo estreito entre o Irã e Omã, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo, algo em torno de 20 milhões de barris por dia. Quando o Irã bloqueou efetivamente esse estreito em resposta aos ataques americanos e israelenses, lançados em 28 de fevereiro de 2026 na chamada Operação Epic Fury, o mercado global de energia entrou em colapso.

Os preços do petróleo explodiram. O barril do tipo Brent, a principal referência internacional, chegou a US$ 114 em meados de março, com o petróleo de Dubai atingindo um recorde histórico de US$ 166 no dia 19 de março, segundo a Wikipedia. Para a Rússia, isso foi uma manna do céu.
€ 7,7 bilhões. Foi o que a Rússia embolsou com combustíveis fósseis nas duas primeiras semanas de guerra no Irã, segundo o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA).
O petróleo russo do tipo Urals, que era vendido com desconto antes do conflito, passou a valer cerca de US$ 90 o barril em meados de março, o dobro do valor de fevereiro, segundo o Carnegie Russia Eurasia Center. Um aumento de apenas US$ 30 por barril já representa US$ 8,5 bilhões de receita adicional por mês para as exportadoras russas, dos quais US$ 5 bilhões vão direto para os cofres do governo, conforme reportou a CNN.
Nos primeiros quinze dias de março, a Rússia embolsou em média cerca de € 372 milhões por dia, 14% a mais do que em fevereiro, de acordo com a Euronews. Esse dinheiro extra está permitindo que Putin adie cortes de gastos impopulares e continue financiando a guerra na Ucrânia sem apertar ainda mais a economia do país.
Uma ironia: foi o próprio Trump quem ajudou Moscou
Parte desse lucro russo veio de uma decisão do governo americano. Em 6 de março, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma isenção de 30 dias permitindo que países como a Índia comprassem petróleo russo que estava parado em navios pelo mundo. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, ampliou a medida, liberando a compra de petróleo russo sancionado em embarcações ao redor do globo. No total, isso colocou cerca de 130 milhões de barris de petróleo russo de volta no mercado global, conforme o RTE.
O efeito foi imediato. Muitos navios que seguiam para a China mudaram de rota em direção à Índia, onde os preços eram ainda mais vantajosos. Com o Estreito de Ormuz bloqueado, países como Índia, China, Japão e Coreia do Sul ficaram desesperados por alternativas de fornecimento. As importações indianas de petróleo russo praticamente dobraram em março em relação a fevereiro, segundo a empresa de análise de dados Kpler, reportada pela CNN.
E o impacto vai além do petróleo. O Estreito de Ormuz também é rota para gás natural liquefeito, fertilizantes, alumínio e hélio. A Rússia é grande produtora de todos esses produtos. Como segundo maior exportador mundial de fertilizantes, Moscou já começa a receber mais pedidos de países como Nigéria e Gana, segundo análise da CNN. Especialistas alertam que essas novas conexões comerciais podem se tornar permanentes, sobrevivendo até a um eventual cessar-fogo.
Drones que foram e voltaram, melhorados
Há uma ironia quase poética na dimensão militar dessa história. No início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, o Irã forneceu à Rússia milhares de drones suicidas do tipo Shahed-136 para serem usados contra cidades e infraestruturas ucranianas. Agora, o fluxo se inverteu.

Segundo o Financial Times, o New York Times e o The Guardian, a Rússia iniciou em março um envio progressivo de drones ao Irã. Mas não são os mesmos drones que recebeu. Desde 2023, a Rússia passou a fabricar os Shahed em sua própria fábrica, em Alabuga, na região do Tartaristão, e fez melhorias significativas nos aparelhos: novos motores, câmeras mais avançadas, módulos que resistem a interferências eletrônicas e antenas de satélite mais robustas. O Irã deu à Rússia um bom drone. A Rússia está devolvendo um drone melhor.
Além dos equipamentos, agências de inteligência ocidentais confirmaram que a Rússia está compartilhando imagens de satélite e dados de posicionamento de navios e aeronaves americanas com o Irã, conforme reportou The Hill. Esse apoio tem causado danos reais. Um ataque iraniano destruiu um avião E-3 Sentry da Força Aérea americana, uma aeronave de alerta antecipado avaliada em cerca de US$ 300 milhões, em uma base na Arábia Saudita no final de março, segundo a Bloomberg. Foi a primeira vez na história que esse tipo de aeronave foi destruído em combate.
Mas há um detalhe importante: a Rússia não necessariamente quer que o Irã vença a guerra. O objetivo de Moscou parece ser prolongar o conflito. Quanto mais o confronto durar, mais o petróleo sobe, mais atenção e recursos americanos se concentram no Oriente Médio e menos armas chegam à Ucrânia, segundo análise do FDD.
A OTAN rachada: o presente que Putin sempre quis
No tabuleiro geopolítico, a Rússia ganhou algo que dinheiro nenhum compra: a maior crise interna da OTAN em décadas. A OTAN é a aliança militar que reúne os EUA e a maioria dos países europeus, criada justamente para conter ameaças como a Rússia.
Os aliados europeus se recusaram a apoiar a guerra no Irã. A Espanha fechou seu espaço aéreo para aviões militares americanos envolvidos no conflito, conforme reportou o Al Jazeera. A França impôs condições ao uso de suas bases. A Alemanha chamou a operação de “erro perigoso”. Trump ficou furioso, chamou os aliados de “covardes” e, em entrevista ao jornal britânico The Telegraph publicada nesta quarta-feira, disse que está “além de reconsiderar” a permanência dos EUA na aliança, suas declarações mais duras até agora sobre o tema, segundo o PBS NewsHour.
Para Putin, isso é ouro puro. A OTAN dividida é exatamente o cenário que a Rússia busca há décadas. Uma aliança que não consegue se coordenar sobre o Irã dificilmente conseguirá se coordenar sobre a Ucrânia. E a simples possibilidade de os EUA reduzirem seu compromisso com a defesa europeia muda fundamentalmente o equilíbrio estratégico no continente, que é precisamente o que Moscou mais deseja.
Conclusão: o único país que ganhou sem entrar na guerra
Enquanto os EUA acumulam gastos astronômicos, com as primeiras 100 horas da Operação Epic Fury custando cerca de US$ 3,7 bilhões segundo a Defense One, e o Irã é devastado diariamente, a Rússia de Vladimir Putin colhe frutos em quatro frentes ao mesmo tempo: receitas de petróleo nas alturas, novos mercados na Ásia, uma parceria militar renovada com Teerã e uma aliança ocidental mais fraturada do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria. Não é quem bombardeia, não é quem resiste e não é quem negocia. O maior vencedor dessa guerra é quem assiste, calado, com os bolsos cheios.

