O analista chinês Jiang Xueqin, que em 2024 apostou na vitória de Donald Trump e numa guerra dos Estados Unidos contra o Irã, agora põe um número na pergunta que ronda o conflito desde fevereiro. Ele estima entre 80% e 90% a probabilidade de a guerra iraniana se transformar em uma Terceira Guerra Mundial. Perguntado se aquilo equivalia a dizer que já está decidido, respondeu: “Basicamente, uma certeza”.

O que o vídeo mostra

O trecho tem 2 minutos e 17 segundos, está legendado em português e começa diante de um quadro digital com o mapa do Oriente Médio, onde Jiang havia escrito a sigla IRGC, da Guarda Revolucionária iraniana, e marcado alvos em vermelho no território do Irã. “Esta guerra, uma vez que comece, só pode levar à Terceira Guerra Mundial”, diz. O entrevistador pede uma probabilidade. A resposta vem sem rodeio: “Eu colocaria bem alto, algo entre 80% e 90%”.

O resto do trecho é a explicação do método dele. Jiang senta a uma mesa, troca o mapa por um jogo de xadrez e distribui as peças entre as partes do poder americano. O rei é o sistema político dos Estados Unidos, a democracia, com a polarização como ponto fraco. “A forma de derrotar os Estados Unidos não é conquistá-los. Você nunca vai conquistar os Estados Unidos. A forma de derrotá-los é forçar uma guerra civil, e isso mata o rei”, afirma. A rainha é a grande estratégia americana, que ele resume em uma frase: “Vamos criar a fortaleza América e depois criar o caos para o mundo inteiro, para podermos vender armas e recursos para todos”. Torre, bispo e cavalo são os vetores de ataque, e o primeiro que ele cita é a supremacia tecnológica.

Quem é ele e o que de fato acertou

Jiang Xueqin é educador e comentarista radicado na China e comanda o canal Predictive History, onde aplica teoria dos jogos e a ideia de psico-história, tirada dos livros de Isaac Asimov, para tentar antecipar movimentos geopolíticos. A audiência dele foi construída sobre três apostas feitas em 2024: Trump venceria a eleição de novembro, os Estados Unidos entrariam em guerra contra o Irã e sairiam derrotados dessa guerra.

As duas primeiras se cumpriram. A guerra começou em 28 de fevereiro de 2026, com ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra instalações nucleares e alvos militares iranianos, e a primeira leva de bombardeios matou o líder supremo Ali Khamenei. A terceira aposta, a da derrota americana, não é fato verificável, é a leitura dele, e é justamente a que sustenta o número de 80% a 90%.

Vale separar o que está no vídeo do que veio depois. As previsões que circulam junto com o trecho, de que a Rússia entraria no conflito, a China viria em seguida e a Coreia do Norte se mexeria, saem de aparições mais recentes de Jiang e ainda não têm respaldo no terreno. Rússia e China condenaram os ataques, mas evitaram apoio militar direto ao Irã. O que fornecem é inteligência: imagens de satélite em tempo real, incluindo o satélite chinês TEE-01B, capaz de identificar objetos de até 50 centímetros no solo. A China compra mais de 80% do petróleo exportado pelos iranianos, o que explica o interesse sem explicar entrada em combate.

O item mais repetido nas redes, o de que uma guerra mundial abriria caminho para um terceiro mandato de Trump, esbarra na 22ª Emenda da Constituição americana, que limita qualquer presidente a dois mandatos. O próprio Trump disse à rede NBC News, em março de 2025, que não estava brincando quando falava em um terceiro mandato e que “existem métodos”, sem detalhar quais. Continua sendo especulação, não plano anunciado.

Onde a guerra está hoje

Cinco meses e meio depois do primeiro ataque, o conflito já teve um fim decretado e desfeito. Trump anunciou o encerramento da guerra em 14 de junho, com um tratado permanente marcado para 19 de junho na Suíça. As hostilidades recomeçaram em 8 de julho.

Os números oficiais dos dois lados não batem. Estados Unidos e Israel contabilizam 19 militares americanos mortos e 624 feridos, 40 militares israelenses mortos e cerca de 6 mil militares iranianos mortos. O Irã afirma ter matado mais de 200 americanos e ferido mais de 3 mil. Entre os episódios com civis, ao menos 100 crianças morreram no ataque a uma escola em Minab. No mar, os iranianos fecharam o Estreito de Ormuz e os americanos impuseram bloqueio a portos do Irã, com pelo menos um navio atacado ao tentar furá-lo. Trump afirma ter “controle total” da passagem.

O que separa guerra regional de guerra mundial

O que separa uma guerra regional de uma guerra mundial não é a intensidade dos bombardeios nem o preço do petróleo, é a entrada de outras potências nucleares no combate. A conta de 80% a 90% de Jiang parte da premissa de que esse alastramento é automático, uma reação em cadeia que começa no Irã e arrasta Rússia, China e Coreia do Norte. Cinco meses e meio depois, a cadeia não andou: as duas potências que poderiam mudar o patamar do conflito seguem vendendo petróleo, passando imagens de satélite e ficando fora do tiroteio.

Isso não torna o alerta irrelevante. O estrago econômico já é global, descrito como a maior perturbação no fornecimento mundial de energia desde a crise dos anos 1970, com petróleo e gás em alta, voos cancelados e mercados nervosos. Mas o que Jiang chama de certeza ainda é uma aposta em cascata.

Três pontos dizem se ele está certo antes de qualquer previsão nova: quanto tempo o Estreito de Ormuz fica fechado, se o apoio russo e chinês deixa de ser inteligência e vira material, e quanto a guerra vai pesar na eleição legislativa americana de novembro, com a economia em queda e a aprovação de Trump caindo junto.