Em fevereiro de 2026, os Estados Unidos usaram em combate pela primeira vez um drone construído a partir de um modelo iraniano que foi capturado, desmontado peça por peça e reconstruído do zero.
Chamado de LUCAS, o novo drone americano foi lançado contra alvos iranianos durante a Operação Epic Fury, uma ofensiva conjunta entre EUA e Israel. O episódio representa uma das ironias mais marcantes da guerra moderna: o país que criou o drone original foi atacado por uma versão aprimorada de sua própria arma.
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O drone que mudou a lógica da guerra
Durante anos, o Irã investiu em uma estratégia que desafiava a lógica tradicional dos conflitos modernos. Em vez de tentar competir com o arsenal sofisticado dos Estados Unidos, Teerã apostou em drones baratos, simples e produzidos em grande escala. O principal deles é o Shahed-136, um drone de asa delta movido por um motor de combustão, capaz de voar centenas de quilômetros até atingir seu alvo e se destruir no impacto, como um projétil que se guia sozinho.
Segundo estimativas do CSIS, um centro de pesquisa americano especializado em defesa e segurança, cada Shahed custa cerca de US$ 35.000. Pode parecer muito, mas é uma fração do custo dos sistemas que os ocidentais usam para se defender. Um míssil Patriot, usado para interceptar drones e mísseis inimigos no ar, custa cerca de US$ 4 milhões. Um Tomahawk, míssil de longo alcance usado para atacar alvos em terra, sai por US$ 2 milhões. A conta era desproporcional: gastar milhões para derrubar algo que custou dezenas de milhares.
A Rússia percebeu o potencial. Licenciou o projeto iraniano e passou a produzir sua própria versão, o Geran-2, em larga escala. Entre 2022 e 2026, a Rússia lançou dezenas de milhares desses drones contra a Ucrânia, forçando as defesas ocidentais a gastar fortunas para tentar derrubá-los.
Da desmontagem ao campo de batalha
A virada aconteceu quando a Ucrânia conseguiu derrubar um exemplar relativamente preservado de um Shahed. O drone foi enviado aos Estados Unidos, onde uma empresa pequena do Arizona chamada SpektreWorks recebeu a missão de desmontá-lo, entender como cada peça funcionava e reconstruir tudo do zero com componentes americanos.
O programa levou apenas sete meses entre a apresentação pública e o primeiro uso em combate, uma velocidade incomum para os padrões militares dos EUA. O resultado foi batizado de LUCAS, sigla para Sistema de Ataque de Combate Não Tripulado de Baixo Custo. O custo por unidade gira em torno de US$ 35.000, segundo o Aerospace America, uma fração do preço de sistemas tradicionais de longo alcance.
A estreia oficial do LUCAS veio em 28 de fevereiro de 2026. Durante a Operação Epic Fury, ataques coordenados entre EUA e Israel contra instalações militares do Irã, a Task Force Scorpion Strike, um esquadrão criado especificamente para operar esse tipo de drone, lançou pela primeira vez drones de ataque descartáveis em combate. O Almirante Brad Cooper, comandante do CENTCOM (o comando militar americano responsável pelo Oriente Médio), definiu o desempenho do LUCAS com uma única palavra: “indispensável”, conforme reportado pelo The War Zone.

A ironia do momento não passou despercebida. Segundo o próprio Cooper, os EUA capturaram o drone iraniano, desmontaram, reconstruíram com componentes americanos e o enviaram de volta contra o Irã.
O detalhe que assustou a Rússia
Se o uso do LUCAS contra o Irã já era significativo por si só, um detalhe nas fotos oficiais divulgadas pelo CENTCOM chamou ainda mais atenção. Analistas identificaram no topo do drone o que parecia ser uma antena receptora de satélite, possivelmente conectada ao Starshield, a versão militar do Starlink (o serviço de internet via satélite da SpaceX) desenvolvida para uso exclusivo do governo americano.
Em 1º de março de 2026, o analista ChrisO_wiki publicou no X uma série de posts reunindo comentários de canais militares russos no Telegram, todos alarmados com a mesma coisa. A publicação ultrapassou 3,4 milhões de visualizações, segundo o DroneXL.
A preocupação dos russos faz sentido, e o motivo é técnico. A maioria dos drones convencionais depende de GPS para saber onde está e para onde ir. O problema é que o sinal de GPS vem de satélites muito distantes, a mais de 20.000 km da Terra, e chega fraco ao solo. Pense numa lanterna apontada de muito longe: a luz é fácil de encobrir. É exatamente isso que equipamentos chamados de jammers (bloqueadores de sinal) fazem. A Rússia se tornou especialista nessa técnica e derrubou ou desviou inúmeros drones na Ucrânia dessa forma.
Mas um drone conectado ao Starshield opera de um jeito completamente diferente. Os satélites dessa rede orbitam muito mais perto da Terra e emitem sinais muito mais fortes. É como trocar aquela lanterna distante por vários holofotes bem perto. Além disso, são milhares de satélites se movendo o tempo todo, o que torna quase impossível bloquear todos ao mesmo tempo.

O canal russo Rybar, com 1,5 milhão de seguidores no Telegram, alertou que a integração de terminais de satélite nos drones americanos tornaria os ataques muitas vezes mais eficazes, conforme reportado pelo Business Insider. Outro canal influente, o Obsessed with War, escreveu que se a Rússia não encontrar uma solução para essa rede de satélites em até um ano, “as coisas vão ficar muito feias”.
A corrida pela produção em massa
O LUCAS é apenas uma parte de um esforço maior. Em dezembro de 2025, o Pentágono lançou o Programa de Dominância de Drones, uma iniciativa de US$ 1 bilhão projetada para expandir rapidamente o arsenal de pequenos drones das forças armadas americanas, segundo o DefenseScoop. As metas são agressivas: cerca de 30.000 drones entregues até julho de 2026, com o objetivo de chegar a mais de 300.000 unidades nos anos seguintes, de acordo com o Military.com.
Esses drones menores, diferentes do LUCAS, teriam custo inicial de US$ 5.000 por unidade, podendo cair para até US$ 2.300 em fases mais avançadas do programa.
Enquanto isso, a Rússia tenta desenvolver sua própria alternativa ao Starlink, uma constelação de satélites chamada Rassvet, liderada pela organização Bureau 1440, que ainda não lançou um número significativo de satélites operacionais. A China, por sua vez, trabalha em projetos paralelos como o Qianfan e o Guowang, mas nenhum deles está próximo da escala do Starlink.
Conclusão
O caminho que o Shahed-136 percorreu é quase poético. Nasceu no Irã, foi copiado pela Rússia, derrubado pela Ucrânia, desmontado nos Estados Unidos e, por fim, lançado de volta contra o país que o criou. Mais do que uma história sobre drones, o episódio revela como a guerra moderna recompensa quem aprende mais rápido, não necessariamente quem gasta mais. E nessa corrida, os papéis de quem ensina e de quem aprende podem se inverter a qualquer momento.

