Quatro soldados israelenses da ativa foram detidos pelo Shin Bet, a agência de segurança interna de Israel, sob suspeita de espionar para o Irã. Mas esse não é um caso isolado: ele faz parte de uma onda sem precedentes de recrutamento iraniano dentro das Forças de Defesa de Israel, que inclui vazamento de segredos do sistema Domo de Ferro, fabricação de explosivos e vigilância de alvos militares. Segundo o próprio Shin Bet, as tentativas iranianas de recrutar israelenses como espiões aumentaram 400% em 2025 em relação a 2024.

O que aconteceu agora

No dia 7 de abril de 2026, as autoridades israelenses confirmaram a prisão de quatro soldados da ativa que estavam sob custódia do Shin Bet há semanas. Eles são suspeitos de espionar para o Irã. Uma ordem de sigilo judicial impede a divulgação de nomes e detalhes, mas o caso já é tratado internamente como uma das maiores brechas de segurança recentes.

A prisão acontece em meio à segunda guerra entre Israel e Irã, um conflito que começou em fevereiro de 2026 com a operação militar conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o regime iraniano. Em paralelo, outros casos de espionagem vieram à tona, pintando um quadro preocupante.

Em um desses casos, revelado pelo tribunal de Ashkelon, suspeitos teriam fabricado explosivos a pedido de agentes iranianos e até realizaram testes com o material produzido. As autoridades israelenses classificaram essa situação como uma “escalada qualitativa” nas operações de inteligência do Irã.

O caso do soldado que vendeu o Domo de Ferro por US$ 1.000

O episódio mais simbólico dessa onda de espionagem envolve Raz Cohen, um reservista de 26 anos de Jerusalém que serviu no sistema Domo de Ferro, o principal escudo antimísseis de Israel.

Lançador do sistema Iron Dome em exposição da Força Aérea de Israel na base aérea de Ramat David, durante o 69º Dia da Indepe
Lançador do sistema Iron Dome em exposição da Força Aérea de Israel na base aérea de Ramat David, durante o 69º Dia da Independência de Israel. Foto: Oren Rozen.

Segundo a acusação formal apresentada ao Tribunal Distrital de Jerusalém em março de 2026, Cohen foi contatado em dezembro de 2025 por um agente iraniano pelo aplicativo Telegram. O agente se identificou abertamente como iraniano e ofereceu dinheiro em troca de informações.

Cohen, que atuava como técnico e operador de lançadores no sistema, forneceu voluntariamente detalhes sobre como o Domo de Ferro funciona, incluindo a estrutura das baterias, os procedimentos de interceptação e a localização de bases da Força Aérea. Conforme noticiado pelo Times of Israel, ele chegou a enviar 27 fotos e vídeos mostrando processos de disparo, taxas de fogo e procedimentos de armamento.

Em troca de tudo isso, Cohen recebeu cerca de US$ 1.000 em criptomoeda. Ele foi preso um dia após o início da atual guerra com o Irã e responde por “auxílio ao inimigo em tempo de guerra”, uma das acusações mais graves da legislação israelense.

Uma onda que vai muito além de um caso isolado

O caso de Cohen não é exceção. É parte de um padrão que vem crescendo de forma alarmante. De acordo com o Jerusalem Post, o relatório anual do Shin Bet, publicado em janeiro de 2026, revelou que 25 israelenses foram indiciados por espionagem para o Irã em 2025, e 120 incidentes separados de espionagem iraniana foram impedidos naquele ano.

Outros casos recentes incluem:

Um morador de Jerusalém de 21 anos, preso em março de 2026, que passou dois meses filmando locais em Israel a pedido de um agente iraniano que conheceu por redes sociais. Ele recebia pagamentos em criptomoeda.

Dois irmãos de Jerusalém foram indiciados em fevereiro por repassar informações de segurança nacional a operadores iranianos em troca de dinheiro.

No início de 2025, dois outros reservistas ligados ao Domo de Ferro, Yuri Eliaspov e Georgi Andreev, foram acusados de espionagem. Eliaspov admitiu ter enviado vídeos do sistema em operação ao seu contato iraniano.

Um adolescente de 14 anos do centro de Israel foi indiciado por realizar tarefas pagas para agentes iranianos, incluindo a documentação de locais sensíveis. O caso ilustra como o recrutamento atinge também menores de idade.

Como o Irã recruta espiões dentro de Israel

O método iraniano segue um roteiro bem definido, segundo especialistas e autoridades israelenses. O contato inicial acontece por redes sociais, principalmente pelo Telegram, muitas vezes disfarçado como uma oferta de trabalho ou oportunidade financeira.

No começo, as tarefas parecem inofensivas: esconder dinheiro, tirar fotos de locais públicos ou colar cartazes. Com o tempo, os pedidos se tornam mais sérios, envolvendo vigilância de figuras públicas, documentação de bases militares ou até fabricação de explosivos.

Os pagamentos são feitos em criptomoeda, geralmente em valores baixos, e as transações são fragmentadas para evitar detecção. A Turquia também tem funcionado como ponto de encontro entre agentes iranianos e recrutas.

Segundo a Iran International, um ex-oficial do Shin Bet explicou que o Irã mudou sua abordagem nos últimos anos. Como não consegue encontrar israelenses pessoalmente, passou a lançar uma rede ampla nas redes sociais, abordando milhares de pessoas até encontrar algumas dispostas a colaborar por dinheiro.

O perfil dos recrutados é variado: soldados da ativa, reservistas, jovens em dificuldade financeira, estudantes e até adolescentes. A maioria age por motivação financeira, não ideológica.

Por que isso é tão grave

A prisão de quatro soldados da ativa, somada a todos os outros casos, revela uma vulnerabilidade que vai além da questão militar. Para Israel, um país que está sendo atacado por mísseis iranianos desde fevereiro, descobrir que parte de quem deveria defender o país está, na verdade, repassando informações ao inimigo é um golpe profundo na confiança interna.

A gravidade não está apenas no que foi vazado, mas no que isso representa: uma estratégia iraniana que encontrou brechas no tecido social israelense. Dificuldades econômicas, alienação social e a facilidade de contato digital criaram um ambiente onde o recrutamento se tornou mais simples do que nunca.

Em julho de 2025, o governo israelense lançou a campanha “Dinheiro Fácil, Preço Alto”, voltada a alertar cidadãos sobre o recrutamento iraniano. A necessidade dessa campanha, por si só, já diz muito sobre a dimensão do problema. Quando um país precisa convencer seus próprios cidadãos a não espionarem para o inimigo durante uma guerra, o caso é, de fato, pior do que parece.