A Ucrânia anunciou nesta quarta-feira, 12 de agosto, que retomou 745 quilômetros quadrados e 26 povoados na chamada direção de Oleksandrivka, o trecho de frente onde as regiões de Donetsk, Zaporíjia e Dnipropetrovsk se encontram. A operação começou em 29 de janeiro, segue em andamento e correu praticamente sem comunicados durante seis meses.

Pela contagem apresentada pelo presidente Volodymyr Zelensky, foram 12 povoados recuperados em Dnipropetrovsk, 10 em Donetsk e 4 em Zaporíjia, num arco de cerca de 60 quilômetros. As tropas ainda varreram mais de 300 quilômetros quadrados de retaguarda atrás de grupos russos infiltrados.

O que o mapa mostra

O avanço só ficou visível para o público quando o analista francês Clément Molin publicou o mapeamento do setor. Em vermelho, o terreno sob controle russo. Em azul, o lado ucraniano. Entre os dois, a faixa esverdeada marca o terreno recuperado no período. As setas amarelas indicam os eixos de avanço, e os losangos apontam os pontos que ele conseguiu situar no terreno.

Duas caixas amarelas destacam os alvos que ainda resistem: Uspenivka, ao sul, e Komar, a leste. Nenhum dos dois aparece como conquistado. A escala do mapa é de 5 quilômetros, o que dá a dimensão real do que se discute aqui: um corredor de campos e aldeias entre Pokrovske, Ternuvate e Velyka Novosilka.

Setor entre Pokrovske e Velyka Novosilka: em vermelho, o terreno sob controle russo; em azul, o lado ucraniano; a faixa verde
Setor entre Pokrovske e Velyka Novosilka: em vermelho, o terreno sob controle russo; em azul, o lado ucraniano; a faixa verde é o que foi recuperado desde janeiro. As setas amarelas marcam os eixos de avanço e as caixas destacam Uspenivka e Komar, que seguem em mãos russas. Mapa: Clément Molin (@clement_molin)

O que dá para confirmar

As perdas russas divulgadas pela Ucrânia, pelo menos 9.550 mortos e mais de 6.600 feridos, são número oficial de um dos lados e não têm confirmação independente. O mesmo vale para os prisioneiros capturados, cuja quantidade não foi informada.

A parte territorial tem sustentação melhor. Molin trabalha por geolocalização, cruzando imagens com pontos identificáveis no terreno, e usa um indicador indireto útil: a concentração de ataques aéreos russos. Segundo a análise dele, as tropas russas que ficaram ao norte do rio Vovcha, em Ivanivka, e do Solena, em Novopavlivka, foram mortas ou capturadas, a julgar pelos cerca de cem ataques aéreos que a própria Rússia despejou na área.

Há um limite que o analista faz questão de marcar, e que vale para qualquer avanço nesta guerra: vídeo de soldado hasteando bandeira não prova controle do terreno. Em julho, com tropas ucranianas já circulando pela região, Molin classificava Komar como 100% sob controle russo. Na primeira semana de agosto, os ucranianos asseguraram Iskra e Tolstoi depois de empurrar os russos para o lado leste do rio Mokri Yali, e consolidavam posições em Piddubne e Zirka. Em Zirka, Yalta, Zaporizke e Myrne a infiltração era real, mas com efetivo pequeno demais para fixar posição.

Quem executou

As Forças de Assalto Aéreo, comandadas por Oleh Apostol, respondem por 20 dos 26 povoados: Tolstoi, Novokhatske, Hrushivske, Zirka, Zelenyi Hai, Piddubne, Myrne, Tsehelne, Pryvillia, Zlahoda, Krasnohirske, Pryvilne, Novohryhorivka, Stepove, Kalynivske, Berezove, Novomykolaivka, Voskresenka, Oleksandrohrad e Yalta.

Os seis restantes ficaram com as unidades de assalto: Rybne, Maliivka, Sichneve, Ternove, Novoheorhiivka e Zaporizke. O balanço da operação foi apresentado a Zelensky pelo comandante em chefe Mykhailo Drapatyi, pelo chefe do Estado-Maior Ihor Skybiuk e pelo próprio Apostol.

Por que este pedaço de mapa importa

Este foi justamente o setor onde a Rússia mais avançou em 2025. Não foi no Donbas clássico que o avanço russo dobrou de ritmo naquele ano, e sim aqui: Velyka Novosilka caiu no começo de 2025 e as tropas russas empurraram para o norte, na direção de Komar, e para oeste, cruzando pela primeira vez a fronteira administrativa de Dnipropetrovsk.

Komar fica 14 quilômetros ao norte de Velyka Novosilka, que virou o centro de abastecimento russo do setor. Tomar Komar colocaria a rota de suprimento russa sob fogo direto. É por isso que uma aldeia de algumas centenas de casas concentra tanto esforço dos dois lados.

O que vem

O obstáculo continua sendo o Mokri Yali, que contorna Komar e funciona como barreira natural. Os ucranianos ampliaram a zona cinzenta, mas não converteram infiltração em controle nos dois pontos que interessam. Enquanto isso, os ganhos líquidos russos no conjunto da frente vêm se aproximando de zero, e entre meados de abril e meados de maio a Rússia terminou o mês com saldo territorial negativo, segundo levantamento do Institute for the Study of War.