A Rússia recebeu pela primeira vez da Coreia do Norte o míssil balístico Hwasong-11C, a versão mais pesada da família que abastece o exército russo desde o fim de 2023, segundo a inteligência militar da Ucrânia (GUR). A informação veio nesta quinta-feira (21) em resposta do órgão ao jornal ucraniano Ukrainska Pravda. A Coreia do Norte afirma que o míssil carrega uma ogiva de 2,5 toneladas, peso pensado para arrasar bunkers e estruturas fortificadas.

A notícia circulou nas redes acompanhada de imagens de arquivo da TV estatal norte-coreana, com mísseis balísticos desfilando diante da multidão em Pyongyang.

Até agora não havia registro de transferência do Hwasong-11C para a Rússia nem de uso do míssil na guerra. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), centro de análise dos Estados Unidos que acompanha o conflito diariamente, diz que ainda não observou evidência de emprego da arma contra a Ucrânia. A ogiva de 2,5 toneladas também segue no campo das alegações: o número foi divulgado pelo regime norte-coreano, não tem confirmação independente e analistas o consideram inflado.

O Hwasong-11C, batizado de KN-30 pelas agências de inteligência ocidentais, é uma versão alargada do KN-23, o míssil norte-coreano inspirado no Iskander russo que abriu essa linha de fornecimento. Usa combustível sólido, parte de lançador móvel e demonstrou alcance de pelo menos 600 quilômetros no único teste conhecido, em março de 2021. Estimativas de analistas chegam a 900 quilômetros com carga menor. Até julho, a Rússia acumulava cerca de 50 mísseis norte-coreanos somando os tipos KN-23, KN-24 e KN-30, o mesmo patamar do estoque de mísseis aerobalísticos Kinzhal.

Essa linha de fornecimento tem histórico. Os primeiros KN-23 norte-coreanos caíram em solo ucraniano na virada de 2023 para 2024 e chegaram tortos: erravam o alvo por centenas de metros. Em 2025, a inteligência ucraniana relatou que a precisão melhorou de forma drástica, resultado de engenheiros russos corrigindo o sistema de guiagem com dados colhidos em combate. O Hwasong-11C entra nesse arranjo já testado, em que a Coreia do Norte fornece o corpo do míssil e a Rússia devolve a experiência de guerra real.

A entrega vem acompanhada de gente para operar o sistema. No início de agosto, cerca de 90 militares norte-coreanos chegaram à região russa de Voronezh, vizinha da fronteira ucraniana, onde podem manter até seis lançadores em condição de disparo. Foi a primeira vez que uma unidade de mísseis da Coreia do Norte se instalou em solo russo para atacar a Ucrânia, e não apenas para entregar equipamento.

O detalhe que muda o jogo é o peso da ogiva. Os mísseis balísticos que a Rússia dispara hoje contra a Ucrânia, como o Iskander-M e o próprio KN-23, carregam cargas na faixa de 500 quilos. Uma ogiva de 2,5 toneladas, mesmo que o número real fique abaixo disso, multiplica o estrago contra centros de comando enterrados, depósitos de munição e abrigos reforçados que resistem aos ataques atuais. E o estoque russo de balísticos é justamente o gargalo do arsenal: eram cerca de 130 Iskander-M em 5 de agosto, contra mais de 450 mísseis de cruzeiro Kalibr. Cada míssil norte-coreano que entra libera um Iskander para outro alvo.

Com a unidade de Voronezh montada e os mísseis já em mãos russas, a tendência é que o Hwasong-11C apareça em combate nas próximas semanas. A defesa aérea ucraniana, que já derruba parte dos KN-23, vai encarar um alvo parecido, só que com muito mais explosivo na ponta.