Investigação do jornal The Telegraph com documentos vazados e imagens de satélite mapeou 59 novas rampas de lançamento nas fronteiras com a Ucrânia e a Belarus.
A Rússia construiu dez bases com rampas novas para lançar seus drones de ataque de maior alcance ao longo das fronteiras com a Ucrânia e a Belarus. A informação é de uma investigação do jornal britânico The Telegraph publicada nesta segunda-feira (17), feita a partir de documentos vazados e imagens de satélite. O levantamento identificou pelo menos 59 rampas recém-construídas. Cerca de 20 são do tipo alongado, o formato exigido pelos modelos que voam perto de 1.000 quilômetros, distância suficiente para alcançar Varsóvia.
O que o mapa mostra
O gráfico publicado com a reportagem marca os pontos de lançamento em um arco que vai da região de Smolensk até o litoral do mar de Azov. Sobre eles, o traçado do raio de 1.000 quilômetros do Geran-5, o drone a jato mais novo da frota russa. O círculo cobre a Polônia inteira, os países bálticos, a Romênia e parte da Turquia, todos membros da OTAN.
🇷🇺🇺🇦 Russia has reportedly built a network of drone bases close enough to strike deep inside NATO territory.
A Telegraph investigation identified 10 Russian bases with newly constructed launch pads for Moscow’s most advanced long-range attack drones, using leaked documents and… pic.twitter.com/dzLj4DGCEG
— Mario Nawfal (@MarioNawfal) August 17, 2026
O que está comprovado e o que é leitura
A parte documental da reportagem é a infraestrutura. As rampas aparecem nas imagens de satélite, e a análise das fotos foi feita pela DroneSec, empresa australiana especializada em inteligência sobre drones. Segundo Mike Monnik, diretor da companhia, a expansão dos pontos de lançamento amplia o número total de aparelhos que a Rússia consegue pôr no ar de uma vez. Parte das bases foi montada em instalações militares e aeroportos civis que já existiam, e outras foram abertas em campo aberto.
O uso operacional também tem rastro. Sete dos dez locais identificados já apareceram em dados de rastreamento aberto de ataques recentes contra Kiev.
O alcance sobre território da OTAN, por outro lado, é cálculo de geometria, não plano detectado. O próprio Telegraph registra que não há indício de que a Rússia esteja preparando um ataque contra a Polônia ou qualquer outro país da aliança. O governo russo nega ter países da OTAN como alvo. O que a reportagem mostra é que a distância deixou de ser obstáculo.
Geran-4, Geran-5 e as bases
Os dois modelos citados são as versões russas do Shahed-136 iraniano, o drone kamikaze de asa delta usado contra cidades ucranianas desde 2022. A diferença está no motor. O Geran-5 tem cerca de 6 metros de comprimento, 5,5 metros de envergadura e propulsão a jato, o que o leva a algo próximo de 600 km/h com uma carga explosiva de 90 quilos. A inteligência militar ucraniana registrou o primeiro emprego em combate no começo de janeiro de 2026. Há relatos de exemplares equipados com mísseis ar-ar R-73 para atacar aeronaves ucranianas.
A produção conjunta de Geran-4 e Geran-5 é estimada pela inteligência ucraniana em cerca de 3.000 unidades por mês, saídas da zona econômica especial de Alabuga, no Tartaristão.
Entre os locais identificados pela reportagem estão Shatalovo, Navlya, a aldeia de Asovytsia, no distrito de Komarichi, região de Briansk, o aeródromo de Khalino, em Kursk, além de Millerovo, Primorsko-Akhtarsk e o aeroporto de Donetsk, em território ocupado. Em uma das bases, as imagens mostram galpões com capacidade para guardar mais de mil drones ao mesmo tempo.
Por que isso muda o problema
O ponto central não é o alcance, é o volume por noite. Rampa de lançamento dispensa pista, é barata e ocupa pouco espaço, então cada base nova soma capacidade de saída sem exigir um aeródromo completo. Com galpão para mil aparelhos ao lado da rampa, o gargalo deixa de ser quantos drones a Rússia fabrica e passa a ser quantos ela consegue lançar por hora.
O motor a jato ataca o outro lado da conta. A Ucrânia respondeu ao Shahed-136 a hélice com drones interceptadores baratos, dimensionados para alvos lentos e de voo baixo. Um aparelho a 600 km/h em altitude maior escapa dessa faixa e volta a exigir míssil de defesa aérea, que custa muito mais caro que o alvo. É a mesma equação desfavorável que a defesa antiaérea europeia enfrentaria no flanco leste.
O que vem
A OTAN respondeu que está pronta para defender “cada centímetro do território aliado” e que segue ampliando a própria capacidade em drones. A aliança vem reforçando a defesa aérea integrada do Báltico ao mar Negro desde as violações de espaço aéreo registradas na Polônia e na Romênia, que a organização classificou como perigosas e inaceitáveis. A reportagem do Telegraph acrescenta um dado concreto a essa discussão: agora existe endereço para os lançadores.

