Analistas dizem que a Rússia poderia repetir contra os países bálticos o roteiro usado antes de invadir a Ucrânia, colocando à prova a disposição da aliança de defender seus membros.
Autoridades de inteligência dos Estados Unidos avaliam que a Rússia pode tentar, contra um país da OTAN, uma operação parecida com a que usou para preparar a invasão da Ucrânia em 2022. A avaliação está em um relatório do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), e o cenário considerado mais provável não é uma invasão em larga escala, mas uma ação limitada, como um ataque aéreo restrito ou uma pequena incursão terrestre, contra um dos países bálticos.
O alerta ganhou força nesta semana depois que o diretor da CIA, John Ratcliffe, fez uma viagem secreta a Moscou, a primeira dele à Rússia no cargo, para avisar autoridades russas contra qualquer ataque a um país da OTAN, segundo apuração da CBS News confirmada depois por outros veículos americanos. A viagem só veio a público depois que um jato da Força Aérea dos Estados Unidos foi visto pousando em um aeroporto de Moscou na terça-feira, junto com um comboio diplomático circulando pela cidade.

A CBS News foi quem revelou o encontro pela primeira vez, e a informação foi confirmada em seguida por ABC News, CNN, The Hill e UPI, com base em fontes ligadas ao governo americano. O porta-voz do governo russo, Dmitri Peskov, confirmou que Ratcliffe se reuniu com autoridades da inteligência russa, mas negou que o encontro tivesse o objetivo descrito pela imprensa americana, chamando as informações de histórias para assustar sem relação com a realidade. O presidente Donald Trump minimizou o encontro, descrevendo-o como uma reunião semirrotineira e afirmando que não tinha relação com a OTAN nem com o Irã, mas sugeriu que a viagem pode render avanços nas negociações de paz sobre a Ucrânia.
Ratcliffe não se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, apenas com quadros da inteligência russa. Antes da viagem, o governo americano avisou a Ucrânia sobre a visita e pediu que o país suspendesse ataques enquanto a delegação estivesse em solo russo, segundo um funcionário ucraniano ouvido pela CBS News. O encontro também tratou do Irã: Ratcliffe cobrou que a Rússia reduza o apoio econômico e militar ao país e alertou sobre novas sanções caso o Estreito de Ormuz continue fechado à navegação comercial.
O relatório do ISW é o centro do alerta. Segundo o instituto, a lógica de uma ação limitada contra a OTAN seria justamente evitar os sinais que costumam preceder uma guerra convencional, como o acúmulo visível de tropas na fronteira, e medir com isso a disposição da aliança de acionar o artigo 5º do tratado, que trata da defesa coletiva entre os países membros. Os países bálticos, Estônia, Letônia e Lituânia, aparecem como alvos mais prováveis desse tipo de ação, por fazerem fronteira com a Rússia e terem contingentes militares menores que os de outros membros da aliança. Um jogo de guerra citado pelos analistas mostrou que uma força de cerca de 15 mil soldados russos seria suficiente para ocupar território lituano antes de qualquer reação militar coordenada da OTAN.

A aliança mantém, desde 2017, batalhões multinacionais permanentes nos três países bálticos, liderados por Reino Unido, Canadá e Alemanha, além de exercícios frequentes na região para testar a capacidade de resposta rápida.
As agências de inteligência americanas não identificaram, até agora, sinais de que a Rússia esteja concentrando tropas em escala comparável à que antecedeu o ataque à Ucrânia em 2022, o principal indício costumeiro de uma invasão convencional. Ainda assim, o ISW pondera que a ausência desse tipo de movimentação não descarta um ataque menor, que exigiria muito menos preparação logística. As estimativas de inteligência citadas pela imprensa americana apontam uma janela entre o fim de 2026 e 2029 para esse tipo de ação, embora alguns analistas considerem possível uma incursão já nos próximos meses.
