Vladimir Putin disse a pessoas do seu círculo mais próximo que “eles vão me enforcar” se a guerra terminar sem a conquista de todo o Donbas, segundo reportagem da revista britânica The Economist publicada no fim de agosto. A mesma reportagem ouviu um integrante da elite russa dizer que “o czar está nu”. A frase chega depois de um mês em que o presidente russo ampliou a própria guarda, viu o prefeito de Moscou criticar em público a ideia de economia de guerra, barrou o único partido contrário à guerra da eleição de setembro e assistiu a filas de gasolina num dos maiores produtores de petróleo do mundo.
Resumo rápido:
- The Economist: Putin disse a aliados que “eles vão me enforcar” se parar a guerra sem todo o Donbas
- Prazo dado às tropas para tomar a região de Donetsk: 31 de dezembro de 2026, o 15º desde 2022
- Guarda presidencial ampliada de 785 para 812 pessoas, quarto aumento desde a invasão
- Yabloko, único partido contra a guerra, barrado da eleição de 20 de setembro
A frase foi publicada pela The Economist e reproduzida pelo Meduza, que resume o conteúdo da reportagem: fontes próximas do presidente afirmam que ele teme pela própria segurança se a guerra acabar sem o objetivo mínimo, que é a região inteira do Donbas. Segundo o Kyiv Post, a revista relata ainda que o governo russo planeja enviar de 300 mil a 400 mil homens a mais para o front. A revista não identifica quem seriam “eles”. A leitura mais comum entre observadores do regime é que a ameaça viria de dentro do sistema: generais, serviços de segurança e o próprio entorno do presidente.
O prazo que pesa sobre a frase é público. Em 29 de agosto, o vice-chefe do gabinete presidencial ucraniano, Pavlo Palisa, disse que a liderança russa ordenou às tropas chegar às fronteiras administrativas de Donetsk e Luhansk até 31 de dezembro. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) considera a meta irrealista: no ritmo atual, a Rússia levaria até 2032 para tomar os 19% que faltam da região de Donetsk, segundo o The New Voice of Ukraine. Em junho, Volodymyr Zelensky já havia contado 15 prazos fixados por Putin para o Donbas desde 2022, todos vencidos, como registrou o Kyiv Post.
O que aconteceu na Rússia nas semanas anteriores
1º de agosto, Moscou. Uma bomba explodiu na varanda do restaurante italiano Balzi Rossi, no centro da cidade, durante uma festa privada. O prefeito Sergei Sobyanin classificou o caso como atentado terrorista, segundo a CNN. O número de mortos subiu de três para cinco. O canal russo ASTRA relatou que a festa era o aniversário de um general, informação que as autoridades não confirmaram, de acordo com o levantamento da Wikipédia sobre o ataque.
Julho, a guarda. Um decreto elevou o efetivo máximo do aparato central do Serviço Federal de Proteção (FSO), responsável pela segurança do presidente, de 785 para 812 pessoas, com vigência a partir de 1º de julho. É o quarto aumento desde a invasão em larga escala: antes da guerra, o teto era de 725, segundo o Meduza. Foi a primeira ampliação feita no meio do ano, e não na virada. Relatos do Financial Times e da CNN, baseados em inteligência europeia e resumidos pelo The New Voice of Ukraine, descrevem um presidente que passa semanas em bunkers, enquanto a TV estatal roda imagens pré-gravadas. Funcionários próximos ficaram proibidos de usar celular com internet, e câmeras foram instaladas nas casas de cozinheiros, fotógrafos e seguranças.
6 de agosto, a elite. Um dia depois de deputados da Duma voltarem a pedir uma economia de mobilização, Sobyanin, prefeito de Moscou e um dos homens mais poderosos do país, disse em entrevista que “matar a economia normal é matar o país inteiro”, segundo o Meduza. Sem economia de paz, argumentou, não há impostos nem renda, e a guerra não se sustenta. Dias depois, Boris Titov, enviado especial de Putin, avisou que a economia russa poderia “enlouquecer” se fosse colocada em pé de guerra, segundo reportagem reproduzida pelo Yahoo Finance.
Os bilionários não falam. Movem dinheiro. A Bloomberg apurou em julho que os russos mais ricos, alguns deles próximos do presidente, tiraram bilhões de dólares do país no último ano, com dezenas de bilhões saindo por fora das estatísticas oficiais só em 2026. As rotas passam por Dubai, Armênia, Cazaquistão e Quirguistão. O motivo, segundo as fontes da agência, não são só as sanções ocidentais: é o medo de que o próprio governo russo confisque empresas, como já fez com donos ligados ao Ocidente.
Agosto, os postos de gasolina. Os ataques ucranianos a refinarias derrubaram o refino russo ao menor nível desde 2002, e o país passou a importar gasolina pronta. Um carregamento de 30 mil toneladas de gasolina AI-92 saiu de Tânger, no Marrocos, em julho, com destino ao porto ártico de Murmansk, segundo o Euromaidan Press. Ao menos 17 regiões russas impuseram limites de venda, como cotas de 30 a 40 litros por veículo, de acordo com a Wikipédia. Um vídeo gravado em Moscou em 18 de agosto mostra a fila num posto às dez da noite.
29 de agosto, a explicação para as crianças. Numa conversa com professores e estudantes da Universidade Pedagógica de Moscou, Putin disse que orcas atacam ursos-polares em bando e os comem “como peixinhos”, e que as crianças precisam aprender isso para entender por que a Rússia conduz a “operação militar especial”, segundo o Kyiv Independent. Não há registro documentado de orca caçando urso-polar. Um zoólogo ouvido pelo Meduza diz que a cena é comum em vídeos falsos feitos por inteligência artificial que circulam nas redes.
10 e 17 de agosto, a eleição. A Suprema Corte russa barrou o Yabloko, único partido que defendia o fim da guerra, da eleição para a Duma marcada para 20 de setembro, sob a alegação de que recebeu doações de origem estrangeira, segundo a France 24. Quando o partido recorreu, no dia 17, a polícia deteve mais de 85 pessoas na porta do tribunal, de acordo com o Meduza.
Junho, Penza. Em uma cidade de província a 600 quilômetros de Moscou, forças de segurança e oficiais de recrutamento fizeram batidas nas ruas para pressionar homens a assinar contratos militares. Um vídeo gravado na noite de 17 de junho na frente do posto de recrutamento da rua Skladskaya mostra mulheres acusando homens fardados de agredir parentes colocados numa van, segundo o The Moscow Times. A polícia local chamou os relatos de “imprecisos”. O site Mediazona ouviu um homem capturado na rua e enviado para a Ucrânia em novembro. Em vez de decretar nova mobilização nacional, que em 2022 fez mais gente fugir do país do que ser convocada, o governo russo empurrou a cota para os governadores.
Por que a frase importa?
Porque muda o cálculo de quem negocia. Quem acredita que perder a guerra significa morrer não aceita um acordo sem o Donbas: escala. A própria The Economist aponta que a resposta provável do governo russo ao impasse é intensificar a guerra híbrida e a sabotagem de infraestrutura no Ocidente. Os três medos descritos nas últimas semanas se somam: o físico, depois do atentado em Moscou; o político, com a elite econômica criticando em público e tirando dinheiro do país; e o social, com a guerra chegando ao posto de gasolina e às vans de recrutamento.
Os dois testes seguintes já têm data. A eleição para a Duma acontece em 20 de setembro, sem o Yabloko na cédula. O prazo dado às tropas para o Donbas vence em 31 de dezembro, e o ISW calcula que, no ritmo de agosto, a região de Donetsk só cairia em 2032.

