A Ucrânia levou para a Dinamarca a arma mais pesada que sua indústria já projetou. Nos dias 19 e 20 de agosto de 2026, na feira DALO Industry Days, em Herning, a Fire Point montou em tamanho real o FP-9, míssil balístico de 855 quilômetros de alcance e ogiva de 800 quilos, ao lado do FP-7, do míssil de cruzeiro Flamingo e do drone de longo alcance FP-1. É a primeira vez que o público ocidental vê o conjunto inteiro de pé, num mesmo estande.
855km range. 800kg warhead. Mach 6.4 speed. 💥
The FP-9 Pelikan is Ukraine’s answer to long-range warfare. Domestically built, hyper-accurate, and designed to crush heavily protected targets deep in Russian territory.
Independence is the ultimate weapon. 🇺🇦🚀 pic.twitter.com/IdEH2mPdj8
— Ukraine News 🇺🇦 (@Ukrainene) August 19, 2026
Vídeo: @Ukrainene, com imagens da Fire Point
O que o FP-9 entrega
São 9,5 metros de comprimento por 1,1 metro de diâmetro, ogiva de 800 quilos, teto de voo de cerca de 70 quilômetros e precisão anunciada em torno de 20 metros. A velocidade máxima chega a 2.200 metros por segundo, Mach 6,4. Para efeito de comparação, o Iskander russo atinge o alvo a cerca de 800 metros por segundo; o projetista-chefe e cofundador da Fire Point, Denys Shtilerman, diz que o FP-9 chega acima de 1.200.
Essa diferença é o coração do projeto. Míssil de cruzeiro voa baixo e devagar, e a defesa antiaérea russa passou três anos aprendendo a derrubá-lo. Um corpo balístico que sobe a 70 quilômetros e mergulha a mais de mil metros por segundo exige interceptador de outra categoria, que a Rússia tem em número limitado e concentrado em poucos pontos. Aeródromos, centros de comando, depósitos de munição e fábricas militares a centenas de quilômetros da linha de frente passam a caber no alcance.
O FP-9 ainda não fez o primeiro voo. Shtilerman disse em julho que falta só o teste do motor de combustível sólido, com todo o resto do desenvolvimento concluído, e a empresa trabalha para usar o míssil contra alvos russos entre setembro e novembro deste ano.
A empresa já provou que entrega
A Fire Point nasceu durante a guerra e hoje fabrica mais da metade dos drones de ataque de longo alcance da Ucrânia. Foi ela que colocou em serviço o FP-1 e o Flamingo, o míssil de cruzeiro que virou símbolo da campanha ucraniana contra refinarias e depósitos russos em 2025.
O FP-7, o irmão menor exposto ao lado do FP-9, já voou. O ensaio aconteceu em 27 de fevereiro de 2026, e o míssil tem alcance de até 200 quilômetros, ogiva de 150 quilos, velocidade máxima de 1.500 metros por segundo e erro circular provável de 14 metros. Os dois são disparados de plataforma móvel sobre caminhão, que a equipe monta em cerca de quinze minutos e tira do lugar antes que o contra-ataque chegue. Parte dos posts que espalharam as imagens chama a arma de Pelikan, apelido que a imprensa especializada associa à versão balística do FP-7.
A filosofia é a mesma dos drones que a empresa produz em série: peça simples, barata e em quantidade, em vez de arma sofisticada em número pequeno. Shtilerman resume o FP-9 como um equivalente ao ATACMS americano, possivelmente com ogiva maior.
Por que isso muda o jogo
A Ucrânia recebeu menos de quarenta ATACMS e queimou o estoque até o começo de 2025. Cada disparo dependia de liberação política do governo americano, e a lista de alvos permitidos mudava conforme a vontade de quem estava no comando. Um míssil balístico fabricado dentro do país apaga esse constrangimento: quem decide onde ele cai é quem o construiu.
É por isso que o programa balístico da Fire Point recebeu prioridade mesmo custando caro. Shtilerman admite que a versão ucraniana deve sair pelo menos pelo dobro do preço do ATACMS, e o país aceita pagar. O valor não está no míssil, está em não precisar pedir licença.
Levar tudo isso a Herning tem função dupla. A Dinamarca é um dos maiores financiadores da indústria de defesa ucraniana, com o chamado modelo dinamarquês de comprar armas diretamente das fábricas na Ucrânia, e a feira é onde esse dinheiro encontra o que comprar. Mostrar o FP-9 de pé, com público circulando ao redor, é argumento de venda e recado ao mesmo tempo.
O que vem
O teste do motor sólido abre o caminho para os ensaios de voo, e da linha de produção depende o volume. Se o cronograma se sustentar, os primeiros FP-9 cruzam a fronteira ainda neste ano, e a Ucrânia passa a ter, pela primeira vez, um míssil balístico próprio capaz de alcançar o interior da Rússia sem pedir nada a ninguém.

