A Rússia posicionou uma de suas fragatas mais modernas a poucos quilômetros da ilha alemã de Fehmarn, no Mar Báltico. A Admiral Kasatonov, que leva mísseis de cruzeiro Kalibr e o Zircon, foi rastreada em meados de agosto navegando com o transponder de identificação desligado, segundo dados de navegação analisados pelo jornal britânico The Telegraph. É o segundo navio de guerra russo a cruzar o mesmo trecho de mar em três semanas.

A passagem foi acompanhada por veículos alemães como o Bild e o Kieler Nachrichten, que vêm registrando o movimento naval russo na região. O que chamou atenção não foi a rota, internacional e legal, mas o transponder desligado: sem o sinal do sistema de identificação automática, o navio some dos rastreadores civis e só aparece para quem tem radar ou satélite. Até a tarde de segunda-feira não estava claro se a fragata seguia nas proximidades da ilha.

O governo alemão não anunciou reforço de meios por causa da viagem. A Marinha alemã já monitora o tráfego militar russo no Báltico, e nenhuma autoridade de defesa confirmou publicamente mudança de postura.

A Admiral Kasatonov entrou em serviço em 2020 e pertence ao Projeto 22350, a classe Admiral Gorshkov, a linha de fragatas mais nova da Rússia. São 16 células de lançamento vertical universais, compatíveis com o Kalibr de ataque terrestre, o antinavio Oniks e o Zircon, que a Rússia descreve como hipersônico e capaz de levar carga nuclear. O navio ainda carrega o sistema antiaéreo Redut e um canhão de 130 milímetros, e é da Frota do Norte, não da Frota do Báltico.

Míssil Zircon deixando a célula de lançamento vertical no convés de proa de uma fragata russa
Lançamento de um míssil Zircon, em dezembro de 2024. Imagem: Ministério da Defesa da Rússia (CC BY 4.0).

Antes dele veio o Admiral Levchenko, contratorpedeiro do Projeto 1155 (classe Udaloy) entregue em 1988, com mais de 7.500 toneladas de deslocamento e 160 metros de casco. Passou por Fehmarn em 31 de julho, também vindo do Mar de Barents. A imprensa alemã associou o deslocamento à proteção da chamada frota sombra, os petroleiros e cargueiros que escoam o petróleo russo por fora das sanções.

Fehmarn não é um ponto qualquer. A ilha fica na rota que liga o Báltico aos estreitos dinamarqueses, a única saída para o Mar do Norte e o Atlântico, e o corredor por onde passa boa parte do comércio marítimo alemão. É também área de veraneio, a menos de 100 quilômetros da base naval de Kiel. Uma fragata com Kalibr e Zircon nessa posição reduz o tempo de voo até alvos no norte da Alemanha e na Dinamarca para poucos minutos.

O pano de fundo é a disputa sobre a frota sombra. Em 12 de agosto, durante exercícios da Frota do Pacífico, Vladimir Putin classificou os planos europeus de apreender navios ligados à Rússia como “pirataria e roubo” e disse que o país seria “forçado a responder na mesma moeda”, sem se limitar às águas onde as embarcações russas fossem detidas. Suécia e França estão entre os que já interceptaram navios suspeitos. O ex-presidente Dmitri Medvedev foi além e sugeriu que a Rússia teria o direito de agir contra navios mercantes em águas neutras.

A movimentação naval chega duas semanas depois de uma avaliação da inteligência dos Estados Unidos, revelada pelo Wall Street Journal em 6 de agosto, segundo a qual a Rússia pode testar a OTAN com um ataque limitado em qualquer momento entre o outono no hemisfério norte e 2029. Entre as hipóteses estudadas estão uma incursão terrestre pequena no flanco leste, ataques cibernéticos, provocações armadas em solo polonês, ataques de míssil ou de drone contra infraestrutura e operações de bandeira falsa com drones de fabricação ucraniana. Polônia e os três países bálticos aparecem como alvos mais prováveis.

A mudança de leitura é o que pesa. Até este ano, a avaliação americana era de que Putin não abriria uma segunda frente enquanto a guerra na Ucrânia estivesse aberta. Agora o cálculo é o oposto: a dificuldade de conseguir um resultado no campo de batalha teria aumentado o incentivo para uma vitória barata em outro lugar. O ministro da Defesa da Lituânia, Robert Kaunas, disse que o governo russo precisa de uma nova escalada e de algum tipo de nova vitória, e que a região báltica e a Polônia são os alvos mais próximos. Em junho, o chefe do Exército alemão já havia avisado que a Rússia poderia estar apta a atacar a OTAN dentro de três anos.

A OTAN respondeu que está “pronta para dissuadir e defender conforme necessário” e que trabalha com várias hipóteses. Na prática, isso já se traduziu em mais exercícios no leste europeu e em troca reforçada de informações de inteligência com a Polônia e os países bálticos. A Admiral Kasatonov, enquanto isso, segue livre para navegar onde está. A rota é internacional e navios de guerra não são obrigados a manter o transponder ligado.