Na madrugada de sexta-feira, 13 de março de 2026, os Estados Unidos executaram um ataque em larga escala contra a ilha Kharg, no Golfo Pérsico — o principal ponto de exportação de petróleo do Irã. Ao mesmo tempo, o Pentágono autorizou o envio da 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais à região, a bordo do navio de assalto anfíbio USS Tripoli. Os dois movimentos juntos representam a mais severa escalada militar dos Estados Unidos desde o início do conflito com o Irã, em fevereiro de 2026.
A ilha mais valiosa do Irã
Kharg é uma ilha de coral pequena — cerca de 8 km de comprimento —, localizada a aproximadamente 25 km da costa sudoeste do Irã, na porção norte do Golfo Pérsico. O seu tamanho não reflete a sua importância: por ali passa cerca de 90% de todas as exportações de petróleo iranianas.
A ilha possui terminais de carregamento com capacidade máxima de até 7 milhões de barris por dia e capacidade de armazenamento de até 30 milhões de barris. Atualmente, o Irã exporta entre 1,5 e 2 milhões de barris diários, com grande parte com destino à China e à Índia. Toda essa produção passa pela infraestrutura de Kharg.

A razão pela qual o Irã concentrou quase toda a sua exportação nessa ilha é geográfica. As águas rasas do Golfo Pérsico impedem que superpetroleiros de grande calado se aproximem da costa iraniana na maior parte da extensão. Kharg é uma das poucas exceções: suas águas profundas permitem que navios-tanque gigantes atraquem e carreguem petróleo diretamente. A ilha está conectada por oleodutos submarinos tanto às plataformas offshore no Golfo quanto aos grandes campos petrolíferos do sudoeste iraniano.
Durante a guerra Irã-Iraque, a Força Aérea iraquiana bombardeou os terminais de Kharg intensamente ao longo dos anos 1980, chegando a colocá-los fora de operação em 1986. O Irã foi obrigado a desviar as exportações para instalações menores em Lavan e Sirri, com capacidade muito inferior — o que devastou a economia iraniana. Analistas descrevem Kharg como uma “vulnerabilidade de ponto único”: se a ilha sair de cena, a capacidade iraniana de exportar petróleo entra em colapso quase instantâneo.
O bombardeio
Na noite de sexta-feira, o presidente Donald Trump anunciou a operação em sua rede social Truth Social. “Há pouco, sob minha direção, o Comando Central dos Estados Unidos executou um dos mais poderosos ataques aéreos da história do Oriente Médio e destruiu totalmente todos os alvos MILITARES na joia da coroa do Irã, a ilha Kharg”, escreveu Trump.
O Comando Central dos Estados Unidos confirmou, no sábado, que a operação destruiu mais de 90 alvos militares iranianos na ilha, incluindo depósitos de minas navais, bunkers de armazenamento de mísseis e múltiplas outras instalações militares — sem comprometer a infraestrutura petrolífera.

A agência iraniana Fars relatou que mais de 15 explosões foram ouvidas na ilha durante os ataques. Segundo fontes citadas pela agência, os alvos incluíram sistemas de defesa aérea, uma base naval e instalações do aeroporto.
A ameaça preservada — por ora
Trump deixou claro que as instalações de petróleo da ilha foram poupadas desta vez, mas fez uma ameaça explícita. “Por razões de decência, escolhi NÃO destruir a infraestrutura de petróleo da ilha. No entanto, caso o Irã, ou qualquer outra parte, faça qualquer coisa para interferir na livre e segura passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, reconsiderarei imediatamente essa decisão”, declarou o presidente.
O Irã confirmou que não houve danos à infraestrutura petrolífera e respondeu com uma ameaça direta. O ministro das Relações Exteriores iraniano afirmou que as forças armadas do país atacarão toda infraestrutura de energia vinculada a empresas americanas na região caso suas próprias instalações de petróleo sejam atingidas. Teerã também alertou civis nos Emirados Árabes Unidos para se manterem afastados dos principais portos do país.
O Brent, principal referência global do petróleo, fechou acima de US$ 100 por barril pela segunda vez consecutiva. Desde o início do conflito com o Irã, o preço do petróleo acumula alta superior a 40%.
Os fuzileiros navais
Horas antes do bombardeio em Kharg, o Pentágono autorizou o envio da 31ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais (31st MEU) ao Oriente Médio, a bordo do USS Tripoli — navio de assalto anfíbio da classe América (LHA-7), com 257 metros de comprimento.
Uma Unidade Expedicionária de Fuzileiros (MEU, na sigla em inglês) é a menor força expedicionária autossuficiente do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, normalmente composta por cerca de 2.200 a 2.500 fuzileiros navais. Ela integra três elementos: um batalhão de infantaria reforçado, um componente aéreo com aeronaves de asa fixa e rotativa, e um elemento de logística de combate.
O componente aéreo da 31ª MEU inclui caças F-35B, helicópteros de ataque AH-1Z Viper, aeronaves de transporte MV-22 Osprey e helicópteros pesados CH-53. O USS Tripoli já testou o conceito de “porta-aviões relâmpago” ao embarcar pelo menos 19 caças F-35B simultaneamente, em abril de 2022.
O grupo anfíbio completo inclui ainda o navio de transporte anfíbio USS New Orleans, o cruzador de mísseis guiados USS Robert Smalls e o contratorpedeiro USS Rafael Peralta. Satélites comerciais flagraram o USS Tripoli navegando ao sul de Taiwan, atravessando o Estreito de Luzon em direção ao Oceano Índico — o que coloca a força a aproximadamente uma semana de distância das águas do Golfo Pérsico.
Um oficial americano confirmou que o Comando Central solicitou o envio da 31ª MEU especificamente para ter mais opções de operações militares contra o Irã. A força tem capacidade para conduzir operações terrestres, caso receba ordens nesse sentido.
A possibilidade de uma operação terrestre
A combinação entre o bombardeio dos alvos militares em Kharg e o envio de uma força anfíbia com capacidade de assalto terrestre coloca em discussão a possibilidade de uma operação para tomar e ocupar a ilha. Segundo reportagem do Axios publicada em 7 de março, a Casa Branca esteve considerando uma operação terrestre em Kharg como uma das opções apresentadas pelo Pentágono.
A lógica estratégica é direta: quem controla Kharg controla o fluxo de petróleo iraniano e, portanto, a sobrevivência econômica do regime. Sem a ilha, o Irã não consegue exportar petróleo em volume significativo, o que comprometeria o financiamento das suas milícias e da Guarda Revolucionária.
No entanto, analistas de segurança alertam que uma operação desse tipo teria riscos elevados. Kharg fica a apenas 25 km da costa iraniana, dentro do alcance de mísseis, artilharia, drones e embarcações rápidas. O Irã passou décadas desenvolvendo táticas para atuar exatamente nesse tipo de ambiente — águas rasas e confinadas do Golfo Pérsico. Além disso, tomar a ilha transformaria o conflito de uma campanha aérea para um compromisso terrestre permanente, com necessidade de defesa contínua e reabastecimento a milhares de quilômetros dos Estados Unidos.
O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, já recusou descartar o envio de forças terrestres ao Irã, mas afirmou que os Estados Unidos não se atolarão no país.
O recado
O ataque desta sexta foi calculado: Trump destruiu as defesas militares da ilha, preservou a infraestrutura petrolífera e, ao mesmo tempo, enviou milhares de fuzileiros navais com capacidade anfíbia para a região. A mensagem é que os Estados Unidos podem atingir Kharg à vontade — e que a infraestrutura petrolífera da ilha está ao alcance a qualquer momento.
Se o objetivo é forçar o Irã a negociar, Kharg representa a alavanca mais poderosa disponível. Sem ela, o regime não tem como sustentar suas finanças. E se a intenção for escalar para uma operação terrestre limitada, o terreno militar já foi preparado.
Fontes consultadas: The Washington Post, NBC News, Al Jazeera, CNBC, NPR, Axios, USNI News, The War Zone, Naval News, Jerusalem Post, France 24
