A guerra na Ucrânia chegou a um ponto de virada em abril de 2026. Figuras importantes dentro do próprio Kremlin, incluindo o ministro da Defesa russo segundo relatos de blogueiros militares, teriam dito a Vladimir Putin que a Ucrânia conquistou vantagem tecnológica decisiva na guerra de drones. Analistas ocidentais e até propagandistas russos confirmam essa virada. Putin, no entanto, continua recusando essa leitura e mantém o discurso de que a vitória é possível, mesmo enquanto a Rússia sofre baixas recordes e tem sua infraestrutura petrolífera atingida em profundidade.
O recado que veio de dentro do Kremlin
A guerra iniciada pela Rússia em fevereiro de 2022 mudou de dinâmica nos últimos meses. A Ucrânia, que por muito tempo lutou para compensar a superioridade numérica russa, passou a ter vantagem no ar graças a drones mais rápidos, mais inteligentes e mais difíceis de abater. Segundo avaliação do Institute for the Study of War, centro de análise militar baseado em Washington, relatos dos dois lados confirmam que Kiev conquistou vantagem clara no uso de drones, o que está travando o avanço russo e permitindo contra-ataques ucranianos.

O mais surpreendente é quem está reconhecendo essa mudança dentro da Rússia. De acordo com informação de blogueiros militares russos repercutida pelo Euromaidan Press, o ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, teria dito a Putin que a situação dos drones é crítica. Os novos modelos ucranianos operariam 24 horas por dia, seriam praticamente silenciosos até o momento do impacto, difíceis de detectar e resistentes aos sistemas de guerra eletrônica russos. Como essa informação veio de fontes não oficiais, o próprio Institute for the Study of War afirma não poder verificá-la com certeza, mas avalia que ela reflete preocupação real dentro do aparato militar russo.
Os números que desmentem o discurso
Os dados divulgados pelo comandante das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksandr Syrskyi, ajudam a explicar o que está acontecendo. Em março de 2026, unidades ucranianas de drones executaram mais de 11 mil missões de combate por dia e atingiram mais de 150 mil alvos verificados, aumento de 50% em relação a fevereiro. Entre os alvos destruídos, segundo reportagem da Al Jazeera, estão 143 depósitos e centros logísticos russos, 52 postos de comando e 20 instalações de petróleo, gás e energia no interior próximo à linha de frente.
Na defesa aérea, a mudança é igualmente dramática. Drones interceptadores ucranianos, mais baratos e cada vez mais eficientes, derrubaram 2.975 drones russos em janeiro, 3.679 em fevereiro e 7.674 em março, de acordo com dados compilados pelo Institute for the Study of War. Isso significa que a Ucrânia está conseguindo neutralizar boa parte dos ataques com drones do modelo Shahed, de origem iraniana, que a Rússia usa em massa para atacar infraestrutura civil e militar ucraniana.
A consequência disso aparece na contagem de baixas russas. Segundo dados divulgados por Zelenskyy ao Kyiv Independent, a Rússia perdeu 35.351 soldados, entre mortos e feridos graves, apenas em março. Cerca de 96% dessas perdas foram causadas por drones, de acordo com estimativa ucraniana. É o maior número mensal desde o início da invasão há quatro anos.
O petróleo russo em chamas
Paralelamente à guerra na linha de frente, a Ucrânia intensificou ataques profundos contra a infraestrutura energética russa. Os dois principais portos petrolíferos do Báltico, Primorsk e Ust-Luga, sofreram ataques repetidos no fim de março e início de abril. Segundo estimativas da Reuters citadas pelo Atlantic Council, cerca de 40% da capacidade russa de exportar petróleo ficou temporariamente interrompida por causa dos ataques, de danos a oleodutos e de outras ações.
O momento importa. A guerra entre Israel e Irã fez os preços do petróleo subirem no mundo todo, o que normalmente seria um ganho financeiro enorme para a Rússia. Mas os drones ucranianos transformaram esse possível lucro bilionário em prejuízo operacional. Moscou respondeu acusando Estônia, Letônia e Lituânia, países bálticos membros da Otan, de permitirem que seu espaço aéreo fosse usado pelos drones ucranianos. Os três países negaram categoricamente a acusação em declaração conjunta, segundo reportagem do Kyiv Post.
Putin preso na própria bolha
Apesar de todas essas evidências, Putin segue agindo como se a vitória fosse questão de tempo. O presidente russo lançou um ultimato exigindo que a Ucrânia abandone a região do Donbas, no leste do país, em dois meses, embora a ofensiva de primavera russa tenha fracassado em obter ganhos territoriais significativos. O ministro francês para a Europa e Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, descreveu a guerra de Putin como um fracasso estratégico, político e econômico que precisa terminar.
Há um detalhe pessoal que ajuda a explicar a desconexão. Segundo reportagem do New York Post baseada em depoimento do desertor Gleb Karakulov, ex-oficial do serviço de proteção do presidente russo, Putin mantém réplicas idênticas de seu escritório do Kremlin em várias residências e evita usar celular ou internet. Ele recebe informações sobre a guerra apenas do seu círculo mais próximo, cujos integrantes têm incentivo para suavizar ou maquiar más notícias.
A Finlândia, que hoje faz parte da Otan após entrar na aliança em 2023 em reação à invasão russa, observa tudo com atenção. O presidente finlandês Alexander Stubb afirmou, em evento da Brookings Institution citado pela Breaking Defense, que a proporção atual de baixas é de cinco soldados russos mortos para cada ucraniano morto.
O que essa virada significa
A guerra não acabou, e a Rússia ainda mantém ofensivas ativas e brutais. Na madrugada de 16 de abril, Moscou lançou quase 700 drones e dezenas de mísseis contra a Ucrânia, matando pelo menos 16 civis e ferindo mais de 80, segundo a NPR. A guerra de desgaste continua, o sofrimento humano é imenso dos dois lados e as tentativas de cessar-fogo estão paralisadas.
Mesmo assim, a foto do front em abril de 2026 mostra algo diferente daquilo que o Kremlin afirma publicamente. A própria estrutura de poder russa, incluindo o ministro que Putin escolheu pessoalmente para liderar a Defesa, já reconhece em voz baixa que a Ucrânia conquistou uma vantagem que Moscou não consegue reverter no curto prazo. O presidente russo pode não estar escutando, mas os números nas estatísticas de baixas, a fumaça dos portos bálticos e os silêncios cada vez mais constrangedores dentro do Kremlin contam uma história que fica cada vez mais difícil de ignorar.

