Pressionado pela Fome e pela Escuridão, Regime Cubano Abre Diálogo com EUA pela Primeira Vez em Décadas

Pela primeira vez desde o início das especulações sobre contatos diplomáticos, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel confirmou publicamente, em 13 de março de 2026, que o governo de Havana mantém conversas diretas com os Estados Unidos. O anúncio foi feito em transmissão pela televisão estatal cubana, em meio à pior crise energética da ilha em décadas — agravada pelo corte no fornecimento de petróleo venezuelano após a captura do ditador Nicolás Maduro por forças americanas em 3 de janeiro.


O Que Díaz-Canel Disse

Em discurso ao Birô Político do Partido Comunista de Cuba, Díaz-Canel declarou que as conversas com Washington têm como objetivo “encontrar soluções, por meio do diálogo, para as diferenças bilaterais entre os dois países”. O líder cubano reconheceu que há “fatores internacionais” que facilitaram os contatos, sem citar nomes, e admitiu que o processo ainda está em fase inicial. “São processos que se fazem com muita discrição, são processos longos”, disse.

Na mesma transmissão, à direita de Díaz-Canel estava sentado Raúl Guillermo Rodríguez Castro — neto de Raúl Castro, conhecido pelo apelido de “el Cangrejo” — mesmo sem ocupar cargo oficial no governo. A presença foi lida por analistas como sinal de que as negociações têm a supervisão direta do ex-presidente, de 94 anos, ainda considerado o centro real do poder em Cuba. Dias depois, funcionários americanos confirmaram que o Secretário de Estado Marco Rubio e seus assessores se reuniram, no final de fevereiro, no Caribe, com o próprio Rodríguez Castro.

Miguel Díaz-Canel
Miguel Díaz-Canel

Crise Energética: Três Meses Sem Combustível

O pano de fundo do anúncio é grave. Cuba não recebe carregamentos de petróleo há cerca de três meses — o último chegou em dezembro de 2025 —, depois que os Estados Unidos bloquearam o fornecimento venezuelano na sequência da captura de Maduro. O governo Trump também passou a ameaçar com tarifas qualquer país que vendesse petróleo à ilha, o que freou alternativas como a mexicana Pemex.

Sem combustível regular, a rede elétrica cubana — já fragilizada por anos de sucateamento — entrou em colapso progressivo. Atualmente, 9 das 16 usinas termelétricas do país estão fora de operação. Na segunda-feira, 16 de março, o sistema elétrico nacional registrou uma desconexão total, deixando aproximadamente 11 milhões de pessoas sem energia em toda a ilha. A estatal Unión Eléctrica (UNE) confirmou a falha e informou que técnicos trabalhavam para reativar as usinas.

Havana, Cuba, 16 de janeiro de 2026. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel e outras autoridades de alto escalão acenam para manifestantes enquanto eles marcham em frente à embaixada dos Estados Unidos. | Daniel Delgado / People’s World

Protestos nas Ruas: Partido Comunista é Atacado em Morón

A insatisfação popular ultrapassou o medo. Na madrugada de 14 de março, manifestantes na cidade de Morón, no centro da ilha, invadiram e atacaram a sede local do Partido Comunista de Cuba. O protesto começou de forma pacífica, na noite anterior, com moradores reunidos contra os apagões e a escassez de alimentos básicos. Parte dos manifestantes passou a atirar pedras contra o prédio e incendiar móveis retirados da recepção. Outros estabelecimentos estatais, como uma farmácia e um mercado do governo, também foram atacados. Cinco pessoas foram detidas.

Protestos com panelaços foram registrados nos dias seguintes em múltiplos bairros de Havana e em cidades das províncias de Holguín e Santiago de Cuba. É um cenário incomum em Cuba, onde o aparato repressivo do Estado atua de forma intensa contra qualquer forma de contestação pública.

A última grande onda de protestos havia ocorrido em julho de 2021 — considerados os maiores desde a revolução —, quando a repressão resultou em mais de mil cubanos presos e condenados a penas de até 30 anos.


Por Que o Regime Cedeu ao Diálogo

Regimes como o cubano não costumam admitir publicamente conversas com Washington. Fazê-lo sinaliza, acima de tudo, que a crise atingiu a governabilidade. O reconhecimento de Díaz-Canel quebra semanas de negação oficial: até poucos dias antes do discurso, funcionários do governo insistiam que não havia qualquer negociação em curso.

Para entender a gravidade do momento, é preciso observar a sequência de choques que o regime enfrenta simultaneamente:

Energético: a queda de Maduro eliminou a principal fonte de petróleo subsidiado. Moscou e Pequim oferecem apoio diplomático, mas não petróleo ou suporte financeiro concreto.

Social: a memória da repressão de 2021 inibe uma explosão nacional, mas a insatisfação cresce com cada apagão. Os protestos recentes mostram que a contenção tem limites.

Geopolítico: Cuba perdeu o guarda-chuva externo que sustentou o regime por décadas — primeiro soviético, depois venezuelano. Sem alternativa, Havana olha para Washington.


O Que os EUA Exigem

Segundo o New York Times, a administração Trump deixou claro que nenhum acordo significativo ocorrerá enquanto Díaz-Canel permanecer no poder. O objetivo americano é forçar uma renovação na cúpula cubana — sem exigir, por ora, o fim do sistema comunista ou medidas contra a família Castro.

As demandas americanas giram em torno de três eixos:

Econômico: abertura da economia cubana ao investimento americano e mecanismos de supervisão sobre o uso de recursos.

Político e humanitário: libertação de presos políticos. O regime já anunciou a soltura de 51 detentos como gesto de boa vontade, em coordenação com o Vaticano — que voltou a atuar como mediador, como fez em negociações anteriores entre os dois países. O Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, se reuniu recentemente com o Papa Leão XIV.

Estratégico: rompimento das conexões cubanas com Rússia, China e Irã.

Em troca, os Estados Unidos liberariam combustível e poderiam investir em infraestrutura, turismo e indústria na ilha.


A Figura de Marco Rubio

A negociação é liderada pelo americano Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA e filho de imigrantes cubanos. Rubio representa, para a comunidade cubana no exílio, uma geração que carrega a história da brutalidade do regime — e que agora conduz a mais séria pressão sobre Havana em décadas.


Até Onde Pode Ir a Crise

O regime cubano segue sendo um estado autoritário de partido único, com instrumentos de repressão institucional ainda ativos. A memória de 2021 pesa sobre a população. Isso significa que o cenário mais provável, no curto prazo, não é uma implosão súbita do sistema, mas uma erosão progressiva: crise material, desgaste da autoridade, pressão por concessões.

Se o regime não conseguir recompor o fornecimento de energia e o abastecimento básico, a pressão sobre o poder pode escalar. O processo de negociação com Washington abre uma janela, mas também expõe as divisões internas do sistema — especialmente entre os que enxergam no diálogo uma saída e os que o leem como capitulação.

A grande questão que paira sobre Cuba hoje não é se o regime sobreviverá indefinidamente. É quando e como ele se transformará.


Fontes consultadas: CNN Brasil, Infomoney, NBC News, CNBC, Newsweek, CiberCuba, Observador, Jornal Grande Bahia, Revista Oeste, Portal Mie, Euronews, Wikipedia