Desde o início da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, em 28 de fevereiro de 2026, crescem as suspeitas de que Teerã não está lutando sozinha no campo da inteligência. Evidências reunidas por autoridades americanas apontam que a Rússia estaria fornecendo ao Irã dados sobre a localização de navios e aeronaves dos EUA no Oriente Médio — e que a China também pode estar contribuindo de forma mais silenciosa.


A Denúncia que Veio a Público

No dia 10 de março, Steve Witkoff, enviado especial do presidente Donald Trump, disse em entrevista à CNBC que havia transmitido pessoalmente a Moscou um pedido para que a Rússia não compartilhasse inteligência com o Irã. Segundo Witkoff, durante uma ligação com Trump, os russos negaram estar compartilhando informações. “Podemos acreditar neles. Mas que tomara que não estejam fazendo isso”, afirmou o enviado.

O Washington Post havia reportado, dias antes, que a Rússia estaria fornecendo ao Irã informações de localização de ativos militares americanos na região, incluindo a posição de navios e aviões. Segundo a publicação, dois funcionários do governo dos EUA com conhecimento da situação confirmaram a assistência russa.

Apesar da negação russa, o próprio Trump admitiu que Putin “quer ser útil” — frase que gerou interpretações ambíguas entre analistas políticos, já que o presidente americano não especificou a quem o líder russo pretendia ajudar.


Encontro de Putin com o enviado especial norte-americano Steven Witkoff, em abril de 2025.

Como a Ajuda Funciona na Prática

Se as suspeitas se confirmarem, a assistência não seria como em um filme de espionagem, com Moscou ou Pequim escolhendo alvos e dizendo ao Irã para apertar o botão. O que as análises indicam é algo mais técnico — e, por isso, mais perigoso.

Rússia e China poderiam estar ajudando o Irã a enxergar melhor o campo de batalha: atualizando mais rápido a posição de alvos de alto valor, identificando onde as defesas estão ativas, em movimento ou mais vulneráveis.

Imagens de satélite atualizadas representam o primeiro tipo de apoio. A questão é tão séria que a empresa americana Planet Labs ampliou o atraso no acesso às suas imagens do Oriente Médio: primeiro impôs um bloqueio de 96 horas (quatro dias), depois estendeu para 14 dias, cobrindo todo o Irã e bases aliadas na região. O objetivo declarado da empresa é evitar que “atores adversários” usem o material de forma tática contra os EUA e seus aliados.

O espaço tornou-se parte central da guerra moderna. Imagens comerciais, somadas à análise por inteligência artificial, reduziram a antiga vantagem exclusiva das grandes potências. Hoje, a capacidade de rastrear ativos sensíveis já não pertence apenas aos grandes Estados.


Sinais Eletrônicos: A Guerra Invisível

O segundo tipo de apoio envolve inteligência de sinais e inteligência eletrônica — informações extraídas de radares, sistemas de armas e comunicações. Quando um sistema de defesa aérea acende seu radar, ele também pode revelar sua posição para quem está monitorando o espectro eletromagnético.

Satélites russos e chineses já alcançaram capacidade robusta para localizar e monitorar sistemas de defesa aérea, catalogar sua configuração eletrônica e apoiar ataques contra defesas móveis em terra. Se alguém entregar ao Irã a posição aproximada de radares, os horários em que eles entram em operação e os setores que estão cobrindo, isso muda significativamente a qualidade de um ataque.

A Fotografia Completa do Campo de Batalha

O terceiro tipo de ajuda seria a montagem do chamado “ordem de batalha” inimiga: quais bases concentram aeronaves de reabastecimento, onde estão os aviões-radar, qual porto está recebendo mais carga militar, onde um destroyer ou uma bateria antimíssil foi deslocada. Onde há gargalos logísticos e quais janelas de vulnerabilidade surgem entre um reposicionamento e outro.

Hoje, ferramentas abertas podem ser combinadas com imagens comerciais para acompanhar até grupos navais no meio do mar.

O Papel Específico da China

No caso chinês, o apoio vai além da inteligência de sinais. Segundo especialistas ouvidos pela Al Jazeera, o Irã pode estar utilizando o sistema de navegação por satélite chinês BeiDou-3 para melhorar a precisão de seus ataques, reduzindo a dependência do GPS americano. A China também exportou ao Irã sistemas de radar avançados, como o YLC-8B, projetado para detectar aeronaves furtivas como o F-35.


Maquete do satélite de navegação BeiDou-3.

Como um Ataque se Constrói

Na prática, o encadeamento das informações funcionaria assim: satélites, sensores eletrônicos e fontes abertas identificam uma concentração de alto valor — uma base com aviões de alerta avançado ou reabastecedores aéreos. Sinais eletrônicos ajudam a confirmar quais radares estão ativos e onde está o centro mais importante da defesa.

Essas informações são então agrupadas em um pacote operacional, com o alvo, o horário de maior atividade, a rota de aproximação e a provável resposta defensiva. A partir daí, o Irã pode lançar um ataque combinado com drones, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos — não necessariamente para destruir tudo de uma vez, mas para saturar a defesa, obrigar os radares a emitir, expor posições e abrir brechas para uma segunda onda.

Por fim, imagens de satélite e interceptações de comunicações servem para avaliar os danos e corrigir a mira do próximo ataque.

Por Que Trump Minimiza os Alertas?

Se as suspeitas são cada vez mais firmes, há uma razão política clara para Trump evitar confirmá-las publicamente. Admitir que a Rússia está ajudando a localizar alvos americanos seria reconhecer que uma potência nuclear rival contribui, ainda que indiretamente, para ataques contra forças dos Estados Unidos — o que exigiria uma resposta mais dura de Washington.

Há também uma segunda razão: reconhecer ajuda externa de alto nível seria admitir uma limitação da própria campanha americana. Mesmo sob bombardeio intenso, o Irã continuaria encontrando meios de mirar ativos valiosos no Golfo Pérsico e no Oriente Médio — o que enfraqueceria a narrativa de que os EUA estão controlando totalmente a escalada do conflito.

Escalar publicamente contra Moscou e Pequim, ao mesmo tempo em que conduz uma guerra contra o Irã, tornaria a crise muito mais ampla e mais difícil de administrar.

O Que Isso Significa na Prática

Se existe de fato apoio externo ao Irã — como as evidências e suspeitas indicam — o mais provável não é a entrega de coordenadas precisas para cada ataque, mas sim um fluxo contínuo de inteligência útil: imagens atualizadas, padrões de movimento, emissões de radar, localização de meios críticos e avaliação de danos.

Esse fluxo, por si só, já seria suficiente para tornar os ataques iranianos mais precisos, mais bem sincronizados e muito mais perigosos para as forças americanas e israelenses na região.


Fontes consultadas: Washington Post, ABC News, CNBC, Al Jazeera, Bloomberg, France24, Reuters (via New Arab), Wikipedia (2026 Iran war), AFP, The Washington Examiner