Cerca de 7.000 colombianos passaram pelo front da Ucrânia desde 2022. O presidente Gustavo Petro chama os soldados de mercenários. Pelo direito internacional, eles não são — e o que muitos vão trazer de volta para casa preocupa serviços de inteligência da América Latina.

No dia 5 de maio, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, escreveu no X que existem “7.000 colombianos, treinados para o combate, lutando em uma guerra estrangeira e morrendo por nada na Ucrânia”. A frase respondia a uma reportagem da imprensa ucraniana que tratava a presença colombiana como reforço importante para o exército de Kiev. Petro disse que a Colômbia não pretende “exportar morte”.

O número de 7.000 saiu de uma investigação da publicação ucraniana NV, citada em fevereiro pela rede estatal UNITED24 Media. Ele soma todos os colombianos que passaram pelo exército ucraniano desde a invasão russa de 2022, e não os que estão hoje no front. Estimativas independentes apontam de 1.000 a 2.000 colombianos em combate ativo neste momento. Como a fonte original do número está ligada ao governo ucraniano, vale tratar a cifra com cautela.

Mesmo assim, o contingente é, com folga, o maior grupo de estrangeiros a lutar pela Ucrânia. Fontes militares ucranianas ouvidas pela France 24 estimam que 4 em cada 10 estrangeiros nas fileiras de Kiev sejam colombianos.

Soldados da Legião Estrangeira exibem as bandeiras da Ucrânia e da Colômbia, em homenagem ao país de origem.
Soldados da Legião Estrangeira exibem as bandeiras da Ucrânia e da Colômbia, em homenagem ao país de origem.

Um excedente militar produzido em 60 anos de guerra interna

A Colômbia luta desde os anos 1960 contra grupos armados — as guerrilhas FARC e ELN, paramilitares, dissidências e cartéis de drogas. Esse conflito longo formou uma das forças armadas mais experientes em combate real do continente, treinada em padrões parecidos com os da OTAN graças ao Plano Colômbia, programa de cooperação militar com os Estados Unidos iniciado em 1999.

Reportagem da revista britânica Delayed Gratification, baseada em entrevistas com 30 soldados colombianos, descreve um sistema que aposenta cerca de 10.000 militares por ano. Muitos saem do serviço entre 30 e 45 anos, ainda em forma física. O acordo de paz de 2016 com as FARC reduziu a guerra interna e deixou esse grupo sem onde aplicar suas habilidades.

A experiência colombiana — combate em pequenas equipes, em selva ou montanha, infiltração e construção de trincheiras — encaixa quase com perfeição no que a Ucrânia precisa preencher hoje no front.

Como a Ucrânia entrou no mercado

O salário é o segundo motor. Estrangeiros que lutam pela Ucrânia recebem entre US$ 3.000 e US$ 4.500 por mês, segundo o The Telegraph e a CartaCapital. Há ainda bônus na assinatura do contrato e indenização para a família em caso de morte. Para um veterano colombiano, isso pode valer várias vezes o que ele ganharia trabalhando como segurança privada em Bogotá.

No início, segundo a France 24, os colombianos viajavam por conta própria. Hoje, brigadas ucranianas pagam a passagem. Recrutadores em Bogotá dizem que recebem mais pedidos de informação do que conseguem responder. O TikTok virou o principal canal de divulgação, com perfis de recrutadores influenciadores que mostram a rotina no front.

Ao chegar, o combatente é incorporado a uma unidade regular do exército ucraniano. Ele recebe patente, salário, uniforme e está sujeito à lei militar do país. Esse detalhe é decisivo para a discussão jurídica.

Mercenários ou soldados regulares?

Pela definição internacional, mercenário é uma figura precisa. Está no Artigo 47 do Protocolo Adicional I das Convenções de Genebra, e exige seis condições ao mesmo tempo. Uma delas diz que o combatente não pode estar no exército regular de uma das partes do conflito.

Como os estrangeiros que lutam pela Ucrânia entram com patente formal no exército ucraniano — situação parecida, em parte, com a Legião Estrangeira francesa —, eles falham nesse critério. Logo, não são mercenários no sentido jurídico do termo.

Jhoe Manuel Almanza, conhecido pelo codinome “Dragon”, é um soldado colombiano que luta ao lado da Ucrânia.Crédito: Jhoe Manu
Jhoe Manuel Almanza, conhecido pelo codinome “Dragon”, é um soldado colombiano que luta ao lado da Ucrânia.
Crédito: Jhoe Manuel Almanza.

A própria Ucrânia destaca isso. O Ministério da Defesa, em comunicado reproduzido pela UNITED24 Media, afirma que os voluntários incorporados pela Legião Internacional são “membros oficiais do serviço ucraniano, não contratados”.

A lei colombiana proíbe atividade mercenária. Mas o presidente Petro usa o termo no sentido político, não jurídico. A definição internacional, na prática, não alcança os colombianos que estão no exército ucraniano.

O risco está no que volta

O que preocupa serviços de inteligência da Ucrânia e do México, segundo investigação documentada pelo Defense News, não é a saída desses homens. É o retorno.

Reportagens do Defense News, do Intelligence Online e do New Lines Institute mostram, desde meados de 2025, que cartéis mexicanos e ex-guerrilheiros colombianos buscam um produto bem específico: combatentes com prática em drones FPV (drones de “vista em primeira pessoa”, em que o piloto enxerga a imagem da câmera do drone em tempo real e o controla até o alvo, peça central da guerra atual).

O Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), do México, mantém uma unidade interna chamada “Operadores Droneros”. A unidade está documentada em reportagens da Wired en Español e do site especializado DroneXL. A inteligência ucraniana (SBU) e o Centro Nacional de Inteligência mexicano investigam, segundo o Defense News, casos de mexicanos e colombianos que se alistaram em unidades hispanofalantes da Legião Internacional, como o grupo “Ethos”, para aprender a operar drones FPV. Um dos investigados, codinome “Águila-7”, foi identificado pela contrainteligência ucraniana como ex-integrante das forças especiais mexicanas (GAFE).

O efeito já chega à América. Em outubro de 2025, três drones explodiram em frente à promotoria de Tijuana, no padrão de ataque que pesquisadores comparam aos drones FPV usados no Donbass (região leste da Ucrânia, principal teatro da guerra). O instituto Brookings e o New Lines Institute chamam o fenômeno de “difusão”: as técnicas da guerra moderna saindo do front e sendo copiadas por cartéis e milícias em outros países.

A conexão que poucas reportagens internacionais desenvolvem é esta: a Colômbia tem soldados experientes que o próprio país não consegue empregar. A Ucrânia absorveu esse contingente no curto prazo. Só que esses homens estão aprendendo coisas novas no front — drones FPV, guerra eletrônica, assalto a posições fortificadas. É exatamente o que cartéis e dissidências das FARC e do ELN querem absorver. Quando voltarem, vão encontrar um governo que os chama publicamente de mercenários, programas de reintegração que falham na prática e um mercado de trabalho saturado.

O Brasil aparece nesse mapa em escala bem menor. O Itamaraty registra 30 brasileiros mortos em combate desde 2022 — 22 lutando pelo lado ucraniano. Reportagens da CNN Brasil e da CartaCapital estimam de 30 a 40 brasileiros em ação no front em diferentes momentos. A diferença é o estoque: o Brasil não tem seis décadas de contrainsurgência nem o mesmo número de aposentadorias militares por ano. O efeito de absorção pelo crime organizado, se vier, será bem menor que o colombiano.

A pergunta em aberto não é se os colombianos vão voltar. Uma parte já está voltando, segundo o Kyiv Post. A pergunta é o que a Colômbia, e seus vizinhos, vão fazer com eles.

Fontes: UNITED24 Media (fev/2026), France 24 (abr/2026), Kyiv Post (fev/2025 e atualizações), Defense News (jul/2025), Intelligence Online, New Lines Institute (jan/2026), Brookings (fev/2026), Atlantic Council (fev/2026), DroneXL, Wired en Español, Delayed Gratification, CartaCapital, CNN Brasil, Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores da Colômbia, postagem do presidente Gustavo Petro no X em 5/5/2026.