Um assessor de Putin disse que a Polônia deixaria de existir em dois ou três dias numa guerra. O governo polonês respondeu com ironia e segue ampliando exército, abrigos e fortificações na fronteira leste.
A Rússia ameaçou apagar a Polônia do mapa. Em 15 de setembro, Nikolai Patrushev, um dos assessores mais próximos de Vladimir Putin, disse que, se os poloneses entrassem em guerra com a Rússia, o Estado polonês “deixaria de existir em dois ou três dias”. Dois dias depois, o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radosław Sikorski, respondeu: “Os generais russos nos ameaçam com guerra nuclear há 20 anos”. E mandou o recado de volta: quem ameaça a Polônia precisa entender no que está se metendo.
Resumo rápido:
- 13 de setembro: drone russo atinge trem Kiev-Varsóvia a 2 km da fronteira polonesa
- 15 de setembro: Nikolai Patrushev, assessor de Putin, diz que a Polônia deixaria de existir em dois ou três dias
- 17 de setembro: Sikorski responde e lembra 20 anos de ameaças nucleares
- Polônia tem cerca de 220 mil militares e gasta perto de 4,8% do PIB com defesa em 2026
Como a troca de recados começou
O estopim foi uma fala de Sikorski numa conferência de segurança na capital ucraniana. Ele disse que, se a Rússia atacasse a OTAN, os aliados “a derrotariam bem rápido”, segundo o Kyiv Post. E deu um alvo concreto: os membros europeus da aliança, mesmo sem os Estados Unidos, teriam aviões suficientes para destruir metade das refinarias russas. “Se os ucranianos tiraram metade da capacidade de refino da Rússia em seis meses, nós tiramos a outra metade em seis semanas”, afirmou, de acordo com a Ukrainska Pravda.
No domingo, 13 de setembro, um drone russo acertou a locomotiva de um trem de passageiros entre Kiev e Varsóvia na região de Volyn, a dois quilômetros da fronteira com a Polônia. Ninguém se feriu. Um trem com delegações estrangeiras, entre elas o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson, tinha deixado a estação de Yahodyn pouco antes, relataram a NPR e o Notes From Poland.
Dois dias depois veio a resposta do governo russo. Em entrevista reproduzida pela emissora estatal RT, Patrushev chamou a avaliação de Sikorski de “amadora” e disse que, numa guerra, a Rússia usaria “todo o arsenal de forças e meios disponíveis” e que o Estado polonês deixaria de existir em dois ou três dias.
A ameaça é real?
Nenhum exército convencional elimina em três dias um país de quase 38 milhões de habitantes que faz parte da OTAN. A expressão “todo o arsenal” aponta para as armas nucleares, e foi assim que o governo polonês leu o recado. Sikorski reconheceu que o arsenal nuclear é a vantagem da Rússia, mas disse que é “difícil de transformar em ganho”: se a chantagem nuclear resolvesse, a guerra na Ucrânia já teria acabado, segundo o LIGA.net.
A data da resposta pesa. Em 17 de setembro de 1939, a União Soviética invadiu a Polônia pelo leste, semanas depois de a Alemanha nazista entrar pelo oeste, como previa o acordo entre os dois regimes. Seguiram-se os fuzilamentos de Katyn, com mais de 20 mil oficiais e prisioneiros poloneses mortos, e quatro décadas e meia sob domínio soviético.
O que a Polônia está fazendo
O Exército polonês tem hoje cerca de 220 mil militares na ativa e deve se tornar a maior força terrestre da Europa até o fim da década, segundo análise da Jamestown Foundation. O orçamento de defesa de 2026 soma 201 bilhões de zlotys, cerca de 4,8% do PIB, a maior proporção entre os membros da OTAN (dados de orçamento militar). O ministro da Defesa, Władysław Kosiniak-Kamysz, pediu que a indústria de armas trabalhe em turnos contínuos, 24 horas por dia e sete dias por semana, informou o Defence24.
O primeiro-ministro Donald Tusk anunciou um programa de treinamento militar em larga escala para todos os homens adultos e disse querer levar o Exército a 500 mil pessoas, contando reservistas, segundo a NBC News. Desde 2026, a maioria dos prédios novos residenciais e comerciais precisa ter abrigo (SFG Media). Na fronteira com a Bielorrússia e com o enclave russo de Kaliningrado, o Escudo Leste reúne fortificações, barreiras antitanque, depósitos e uma rede de radares e sensores para detectar drones. A ideia não é parar uma invasão na linha, e sim atrasá-la até os aliados chegarem.
Do que a Polônia tem medo?
O temor do governo polonês não é uma invasão total, e sim um ataque rápido a uma faixa pequena de território, seguido de ameaça nuclear para dissuadir a reação. O Artigo 5 da OTAN obriga os aliados a ajudar um membro atacado, mas cada país decide como. Se a aposta russa desse certo uma vez, a garantia coletiva perderia valor para todos os membros menores da aliança.
Os sinais de teste já existem. Na noite de 9 de setembro de 2025, entre 19 e 23 drones russos desarmados, do tipo usado como isca, entraram no espaço aéreo polonês. Caças da Polônia e de aliados derrubaram alguns, e o governo acionou o Artigo 4 da OTAN para consultas, relatou o Washington Post.
O que vem agora
Em discurso ao parlamento em 18 de setembro, Tusk disse que existe “risco real” de drones ou outros projéteis russos entrarem no território de um ou mais países do flanco leste, com a Rússia tratando o caso como acidente para dividir a aliança. A aposta polonesa é ter força para aguentar sozinha o primeiro golpe e tempo para que os aliados cheguem.

