A Ucrânia lançou na madrugada de 20 de setembro o maior ataque de drones já registrado contra a região de Moscou e atingiu de novo a refinaria da capital russa, no bairro de Kapotnya. O Ministério da Defesa da Rússia disse ter derrubado 1.110 drones ao longo da noite, o maior número que já divulgou. O ataque caiu no último dia da eleição parlamentar russa, a primeira desde o início da invasão.
Resumo rápido:
- Rússia diz ter derrubado 1.110 drones numa noite; o prefeito de Moscou fala em mais de 1.600 desde o dia anterior, 450 deles rumo à capital
- Alvo principal: a refinaria de Moscou, que atende cerca de 40% do combustível da região e já tinha parado em junho
- Segundo a Agência Internacional de Energia, uma refinaria russa foi atingida com sucesso a cada três dias em 2026
O que se sabe do ataque
Os números vieram do próprio governo russo. O Ministério da Defesa informou 1.110 drones abatidos na noite de 19 para 20 de setembro, marca que a ABC News classificou como a maior já reportada pelo ministério. O prefeito Sergei Sobyanin foi além e disse que mais de 1.600 drones foram derrubados nas aproximações da cidade desde o dia anterior, 450 deles em direção à capital, segundo a Ukrinform. Sobyanin chamou o ataque de “sem precedentes” e afirmou que ele foi planejado para atrapalhar a votação, que terminava naquele domingo. A Ucrânia não comentou a eleição.
A refinaria Gazpromneft de Moscou pegou fogo e suspendeu as operações. Fontes do setor disseram à Reuters que a retomada deve levar semanas. A unidade tem capacidade para 11 milhões de toneladas de petróleo por ano e responde por cerca de 40% do mercado de combustível da capital. Pelo menos duas pessoas morreram e 20 ficaram feridas na região de Moscou, a maioria em incidentes fora da refinaria. Os quatro aeroportos internacionais da cidade ficaram sob restrição de voo durante a madrugada.
Um dia antes, em 19 de setembro, Volodymyr Zelensky disse ter aprovado “novas operações de longo alcance em resposta aos ataques russos”, segundo o Kyiv Independent. Depois do ataque, ele afirmou que a ação teve “impacto muito significativo” na região de Moscou e que o alvo era uma das instalações-chave da indústria de petróleo russa. A Ucrânia disse ter usado também mísseis de cruzeiro Flamingo e mísseis balísticos Pelican.
Por que atacar uma refinaria que já estava parada?
Porque a Rússia estava tentando consertá-la. Em junho, dois ataques em três dias tiraram a refinaria de operação: o primeiro, em 16 de junho, atingiu a unidade de destilação responsável por 53% da capacidade; o segundo, em 18 de junho, derrubou a unidade Euro+, que fazia os 47% restantes. Fontes do setor disseram à Reuters que o reparo levaria pelo menos seis meses, com retomada improvável antes de 2027. Três meses depois, a Ucrânia voltou. Cada drone que cai no meio da obra destrói equipamento novo e obriga a inspecionar tudo outra vez.
A lógica se repete no país inteiro. Em análise publicada em 11 de setembro, a Agência Internacional de Energia calculou que uma refinaria russa foi atingida com sucesso, em média, a cada três dias nos oito primeiros meses de 2026. O processamento de petróleo caiu para 3,8 milhões de barris por dia em junho, o menor nível desde 2004, e a produção de gasolina está 20% abaixo de 2025. A agência também registrou que as ondas de drones contra um mesmo alvo estão superando as redes antidrone e a defesa aérea das refinarias. O resultado é que a Rússia, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo, passou a importar gasolina: entre janeiro e agosto, comprou 866 mil toneladas de refinarias bielorrussas, 23 vezes mais que no mesmo período de 2025, segundo o 112.ua.
O drone copiado de uma fábrica chinesa
Canais que acompanham a guerra identificaram um dos drones filmados sobre Moscou como um MICH 2000, aparelho pouco conhecido usado pelo centro de operações especiais Alpha, do serviço de segurança ucraniano (SBU). A história dele começa em 2023, quando a China restringiu a exportação dos drones civis que unidades ucranianas vinham convertendo em munição de longo alcance. Uma equipe ucraniana visitou a fábrica do modelo ZTK-150 para um treinamento de pilotos, fotografou a linha de produção e voltou com oito unidades, segundo o Euromaidan Press. O fabricante refez o projeto do zero e hoje diz que “quase nada do drone chinês sobrevive, exceto o contorno”.
Dois anos depois, o MICH 2000 voa até 2.000 quilômetros, carrega ogivas de 25 a 60 quilos e custa a partir de 48 mil dólares. Uma das versões leva antena resistente a interferência, que segundo o fabricante responde por quase metade do preço. A empresa produz 6.000 unidades por ano e quer chegar a 10.000. Em 16 de julho, drones do modelo danificaram um bombardeiro Tu-95 na base de Engels, um dos aviões que lançam mísseis contra cidades ucranianas, de acordo com a Ukrainska Pravda.
Do outro lado estava uma capital cercada por três anéis de defesa aérea, com um quarto em construção. A peça central é o Pantsir, veículo com radar, mísseis e canhões feito para derrubar exatamente esse tipo de alvo. Depois dos ataques de junho, a Rússia posicionou mais um Pantsir ao lado da refinaria. Análise da Defense Express publicada pelo Kyiv Post apontou dois detalhes: o veículo veio com gaiola antidrone, padrão de equipamento de linha de frente, e o lançador visível carregava dois mísseis onde cabem seis. Para os analistas, é sinal de que o sistema foi tirado do front e de que faltam mísseis.
Por que a defesa de Moscou perde mesmo derrubando quase tudo?
Porque a conta é assimétrica. Quem defende precisa acertar todos os drones, todas as vezes. Quem ataca só precisa que alguns passem. Se mil drones decolam e a defesa derruba 95 de cada 100, ainda chegam 50, e bastam poucos para incendiar uma refinaria. Há também a conta do dinheiro: um MICH custa 48 mil dólares, e os mísseis que protegem Moscou foram feitos para derrubar aviões de milhões de dólares. Mesmo quando acerta, a Rússia costuma gastar mais para derrubar do que a Ucrânia gastou para lançar.
Três fatores pioram esse jogo para a Rússia. O primeiro é o próprio alvo: a refinaria estava coberta de redes antidrone, mas nenhuma rede segura dezenas de quilos de explosivo em mergulho, e ninguém consegue embrulhar uma refinaria inteira. Em 2020, a planta foi modernizada e várias unidades pequenas viraram duas grandes, uma ao lado da outra. Em tempo de paz, eficiência. Em tempo de drone, um alvo concentrado.
O segundo é o preço de atirar sobre a própria cidade. Em junho, vídeos mostraram um míssil da defesa russa errando o drone e seguindo na direção de um tanque da refinaria. Analistas consideram provável que ao menos uma das explosões daquele dia tenha sido fogo amigo, e a mesma suspeita voltou em setembro.
O terceiro é que a Ucrânia caça quem defende. Antes das grandes ondas, ela ataca radares e os próprios Pantsir. Em 19 de setembro, o comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados, Robert Brovdi, informou que a tropa atingiu 300 sistemas de defesa aérea russos em 2026, entre 162 lançadores, 124 radares e 14 sistemas de guerra eletrônica, segundo a Ukrinform. Cada Pantsir que sai da linha de frente para proteger a capital abre um buraco em outro lugar, e cada um destruído no front deixa de estar disponível para Moscou.
O que vem
A Rússia pode consertar a refinaria, erguer mais torres e levar mais Pantsir do front para a capital. O que não existe é blindagem total. O custo de derrubar quase tudo só cresce, e a Ucrânia, com drones de 48 mil dólares e um alvo atingido a cada três dias, só precisa que alguns passem.

