Vladimir Putin anunciou em 1º de setembro, numa coletiva no Quirguistão, que o exército russo havia tomado Sviatohirsk, cidade do norte da região de Donetsk. Seis dias depois, em 7 de setembro, o general de brigada Andriy Biletskyi, comandante do 3º Corpo de Exército da Ucrânia, gravou um vídeo caminhando pelo centro da cidade, sem capacete, com o mosteiro da Lavra ao fundo, e mandou o comando russo “tirar os narizes de palhaço”. A cidade segue sob controle da 60ª Brigada Mecanizada ucraniana.

Resumo rápido:

  • 1º de setembro: Putin anuncia 14 localidades tomadas em um mês, entre elas Sviatohirsk e Kozacha Lopan
  • 7 de setembro: Biletskyi filma passeio em Sviatohirsk; a 60ª Brigada Mecanizada mantém a cidade
  • Instituto para o Estudo da Guerra (ISW): tropas russas nunca chegaram a menos de 13 km da cidade
  • Dois vídeos russos “provando” a captura foram desmontados como falsos por um canal russo pró-guerra
Vídeo: Realidade Militar

O que Putin disse e o que os mapas mostram

A coletiva aconteceu na noite de 1º de setembro, depois da cúpula da Organização para Cooperação de Xangai em Bishkek. Putin listou 14 localidades capturadas no mês anterior, falou em milhares de soldados ucranianos cercados perto de Vovchansk e disse que a informação vinha do Estado-Maior russo, com um quadro “bastante objetivo”. A Meduza apontou que nem os canais de Telegram próximos ao comando russo conseguiram sustentar o cerco anunciado, e que a Rússia não tem efetivo para fechá-lo.

Sobre Sviatohirsk, a avaliação do Instituto para o Estudo da Guerra de 2 de setembro foi direta: a alegação está “desconectada de todas as evidências disponíveis”. No ponto de maior avanço, no fim da primavera, as tropas russas ficaram a 13 quilômetros da cidade, e a linha atual provavelmente está mais longe, por causa da contraofensiva ucraniana perto de Lyman. O Kyiv Post registrou que nenhuma posição russa foi documentada nas imediações da cidade nos últimos meses.

O prefeito de Sviatohirsk foi o primeiro a responder, com um vídeo andando pelas ruas. A administração regional confirmou que a cidade continuava ucraniana. Em 7 de setembro veio a resposta militar. Segundo a Ukrainska Pravda e a Ukrinform, Biletskyi parou diante da Lavra da Dormição e disse: “A 60ª Brigada Mecanizada do 3º Corpo de Exército tem controle total da cidade. Na verdade, isto aqui é a nossa retaguarda.” E completou: “Tirem os narizes de palhaço e as perucas coloridas. Parem de fazer papel de bobos.”

Os vídeos falsos e quem os desmontou

Em vez de corrigir o anúncio, apareceram na internet russa dois vídeos que “provariam” a presença de soldados russos na cidade. De acordo com o EUobserver, o primeiro era uma filmagem verdadeira de 2025 com um áudio novo gravado por cima. O segundo usou inteligência artificial para apagar o prefeito ucraniano do próprio vídeo e colocar um soldado russo no lugar, na mesma rua e no mesmo enquadramento.

Quem declarou os dois falsos foi o Military Informant, canal russo pró-guerra. A explicação dele para a origem da fraude: um comando local informou aos superiores que a cidade tinha caído. Quando o prefeito apareceu nas ruas, o comando superior passou a exigir com urgência uma prova da captura. Como ela não existia, alguém fabricou uma. O canal lembrou que o mesmo tipo de montagem já tinha sido usado em Kupiansk e Borova, e descoberto nas duas vezes.

O caso de Kozacha Lopan, a segunda cidade anunciada por Putin, segue o mesmo roteiro. O ISW cita uma fonte que acompanha o Agrupamento Norte russo: os comandantes locais vinham reportando a captura da cidade à liderança desde julho, e ela nunca aconteceu. Pela medição do instituto, as tropas russas ocupam cerca de 13% da localidade.

Por que isso importa?

Porque o próprio Putin parece acreditar nos relatórios. Os blogueiros militares russos têm um nome para a prática: “relatórios bonitos”. Um comandante informa uma vila que não tomou, o escalão acima planeja a partir desse dado e manda tomar a vila seguinte. Na avaliação de 6 de setembro, o ISW conclui que essa distorção sistemática alimenta a convicção de Putin de que a Rússia toma o restante de Donetsk até 31 de dezembro de 2026, e que por isso ele não vê motivo para ceder em nenhuma negociação.

Os números do terreno vão na direção contrária. Segundo o levantamento do ISW publicado pelo The New Voice of Ukraine, a Rússia tomou 505 quilômetros quadrados em agosto de 2025 e 90 em agosto de 2026, enquanto a Ucrânia liberou pelo menos 129 no mesmo mês. Putin já fixou ao menos 15 prazos para conquistar Donetsk desde fevereiro de 2022 e não cumpriu nenhum. No ritmo de agosto, os 19% que faltam da região levariam até outubro de 2032.

Há ainda o calendário político. As eleições para a Duma, a câmara baixa do parlamento russo, acontecem de 18 a 20 de setembro, conforme decreto assinado por Putin. Anúncios de vitória às vésperas do voto têm um público interno a atender. O EUobserver observou que, quando o vídeo de Biletskyi circulou, o canal do blogueiro pró-guerra Yuri Kotenok, com mais de 300 mil seguidores, recebeu sobretudo reações de surpresa e decepção. Parte do público russo tinha acreditado.

Do governo russo, até agora, não saiu correção, nota ou prova nova sobre Sviatohirsk.