O vídeo, gerado por inteligência artificial, circulou horas depois que Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ataques no Estreito de Hormuz, no fim de um mês sem confrontos diretos.
No fim da noite de domingo (30), pelo horário dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump publicou em sua conta no Truth Social um vídeo afirmando que a ilha iraniana de Kharg estava “sendo explodida em pedaços”. Não existe ataque real por trás da alegação: as imagens foram geradas por inteligência artificial, o Comando Central dos Estados Unidos não mencionou nenhuma ação contra a ilha, e a estatal petrolífera do Irã disse que as operações no local seguem normais.
🔴President Trump just posted that Kharg Island is “being blown to smithereens.”
Kharg is Iran’s main oil-export hub in the Persian Gulf.
The post came as U.S. Iran fighting flared again around the Strait of Hormuz.
He has threatened Kharg for months and previously said U.S.… pic.twitter.com/cK6ilXsVM7— Commentary Donald J. Trump Posts From Truth Social (@TrumpDailyPosts) August 31, 2026
O post rodou o mundo antes de qualquer fonte independente confirmar a cena. Horas depois, o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) divulgou nota descrevendo uma “ação limitada e precisa” contra a capacidade iraniana de colocar minas no Estreito de Hormuz, sem citar Kharg em nenhum momento: as forças americanas atingiram dois lançadores de foguetes em outra ilha iraniana, Larak, na entrada do estreito. O presidente da estatal petrolífera iraniana, Hamid Bovard, chamou a alegação de Trump de “ridícula” e disse à imprensa iraniana que a atividade em Kharg seguia normal.
O confronto real de domingo foi o primeiro entre as duas forças em um mês, desde 29 de julho. Segundo o porta-voz do CENTCOM, Tim Hawkins, militares da Guarda Revolucionária do Irã se preparavam para lançar foguetes com minas navais dentro do Estreito de Hormuz quando as forças americanas atingiram os dois lançadores em Larak. A Guarda Revolucionária reconheceu “a morte e o ferimento de vários combatentes e compatriotas”, sem dar números, chamou o ataque de “erro fatal do governo Trump” e prometeu retaliar. Horas depois, mísseis balísticos iranianos atingiram bases aéreas da Jordânia. A defesa antiaérea jordaniana interceptou oito projéteis, e a Guarda Revolucionária afirmou ter derrubado um drone MQ-9 Reaper americano.
Kharg é o principal terminal de exportação de petróleo do Irã, a cerca de 25 km da costa no golfo Pérsico, responsável por perto de 90% das vendas externas do país. Um ataque real à ilha atingiria diretamente a receita do governo iraniano, então qualquer menção a ela mexe com o mercado de petróleo, mesmo quando, como agora, não existe ataque nenhum. O episódio também mostra como vídeos gerados por inteligência artificial já circulam como se fossem prova de operações militares reais, inclusive partindo do próprio presidente dos Estados Unidos.
A crise no Estreito de Hormuz já dura seis meses e deixou um rastro concreto: pelo menos 65 ataques a navios mercantes desde março, 20 marítimos mortos, 35 feridos e um desaparecido, além de embarcações abandonadas, incendiadas ou afundadas pelos dois lados. O petróleo tipo Brent passou dos 100 dólares o barril em 8 de março, pela primeira vez em quatro anos, e chegou a bater 126 dólares no pico da crise, a maior disparada nos preços de energia desde os anos 1970.
A guerra entre Estados Unidos e Irã começou em 28 de fevereiro, quando uma campanha aérea americana e israelense matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em Teerã, e mergulhou o país em uma crise de sucessão. Desde então, os dois lados alternam entre semanas de calmaria e novos ataques, e o episódio de domingo é o primeiro sinal de que a pausa de um mês chegou ao fim.

