A inteligência militar da Ucrânia afirma que o Estado-Maior russo já preparou uma opção de mobilização adicional de 600 mil pessoas, dividida em duas levas de 300 mil, uma em 2026 e outra em 2027. Segundo o relatório, a decisão de ativar o plano deve ser tomada só depois das eleições para a Duma Estatal, marcadas para 18 a 20 de setembro.

Recrutas russos em formação com fuzis e mochilas em dia chuvoso, foto de arquivo.
Recrutas russos em formação durante mobilização na Rússia, foto de arquivo. Imagem: reprodução de redes sociais (@NOELreports)

A informação foi divulgada nesta quinta-feira, 27 de agosto, pelo gabinete da Presidência da Ucrânia, com base em relatório conjunto da Diretoria Principal de Inteligência (GUR) e do Serviço de Inteligência Estrangeira (SZRU). O conteúdo foi replicado por veículos como Kyiv Post, Kyiv Independent e UNN. Como em qualquer alegação vinda de um lado do conflito, os números não têm confirmação independente da Rússia, que costuma negar relatos ucranianos sobre baixas e recrutamento. Já as eleições de 18 a 20 de setembro são reais e confirmadas pelo próprio calendário eleitoral russo: serão as primeiras eleições legislativas desde o início da invasão em grande escala, em 2022, e as primeiras com participação de eleitores nos territórios ucranianos ocupados.

Segundo a inteligência ucraniana, a Rússia perdeu cerca de 240 mil militares entre janeiro e julho deste ano, dos quais ao menos 140 mil são baixas irrecuperáveis, ou seja, mortos, desaparecidos ou fora de combate de forma permanente. No mesmo período, o recrutamento por contrato somou 232 mil soldados, um número menor que o das perdas. É essa diferença, segundo os serviços ucranianos, que levou o Estado-Maior a preparar a convocação forçada como alternativa ao alistamento voluntário, que vem perdendo força nas regiões russas.

O enfraquecimento do alistamento voluntário já vinha sendo apontado por outros levantamentos neste ano. Estudos independentes citados por veículos ucranianos mostraram queda de cerca de 20% no ritmo de novos contratos no primeiro trimestre de 2026 e dias com pouco mais de 800 assinaturas, um número baixo para as necessidades do front. O governo russo tem usado bônus e salários elevados para tentar segurar o fluxo de voluntários, mas o próprio cálculo da inteligência ucraniana indica que essa estratégia deixou de compensar as perdas em combate neste ano.

Uma nova mobilização em massa é um risco político direto ao governo russo. A convocação de setembro de 2022, a primeira desde a Segunda Guerra Mundial, chamou cerca de 300 mil homens às pressas e provocou fuga em massa de homens em idade de combate, além de uma queda visível de popularidade, algo que o governo evitou repetir desde então, preferindo pagar mais para atrair voluntários. Se o recrutamento por contrato já não cobre as perdas no front, a alternativa que resta é a convocação obrigatória, mas anunciá-la antes de uma eleição teria custo eleitoral. Daí a avaliação da inteligência ucraniana de que o anúncio, se vier, só deve acontecer depois do dia 20 de setembro.

Por enquanto o plano é uma opção preparada, não uma decisão tomada. O desfecho deve ficar mais claro depois do resultado das eleições para a Duma, quando o governo russo terá menos motivo para adiar uma decisão sobre reforço de tropas.