Tom Barrack afirma que bombardeio à base de Abu al-Duhur deixou os dois países a um passo de um choque direto e fala em risco de Terceira Guerra Mundial
O ataque israelense à base aérea de Abu al-Duhur, na província síria de Idlib, quase arrastou Israel e Turquia para um confronto militar direto. A avaliação é de Tom Barrack, embaixador dos Estados Unidos na Turquia e enviado especial para a Síria, que disse à emissora israelense i24NEWS que os dois países ficaram a um passo de um choque entre seus exércitos. Em outra entrevista, ele foi além: um erro militar pequeno, afirmou, pode acender o fogo de uma guerra grande como a Terceira Guerra Mundial.
O bombardeio aconteceu na noite de 18 de agosto. Israel assumiu a autoria e apresentou a justificativa: a Síria estaria prestes a romper o entendimento de segurança entre os dois países ao permitir que tropas turcas se instalassem na base, e o governo israelense teria avisado repetidamente que não aceitaria essa presença.
Reports from Syria: The Abu Al Duhur military base in Idlib, reportedly struck by Israel, is still burning with secondary explosions reported hours later. pic.twitter.com/JTjQLr61fv
— Open Source Intel (@Osint613) August 18, 2026
Para Barrack, a informação não se sustenta. Ele contou que Israel repassou aos Estados Unidos, seis dias antes do ataque, um alerta sobre movimentação militar turca no local. A inteligência americana checou por conta própria e não encontrou base para a alegação. O Ministério da Defesa da Turquia também negou que qualquer delegação militar tenha visitado Abu al-Duhur, ao contrário do que afirmava a chancelaria síria.
Em entrevista ao apresentador Mario Nawfal, o embaixador levantou uma hipótese mais grave: a de que o ataque tenha sido desenhado para provocar uma reação turca. “Uma teoria é que eles estavam apenas iscando a Turquia, e é um conceito pré-eleitoral muito agressivo, mas talvez bem recebido”, afirmou. Israel tem eleições marcadas para 27 de outubro. O próprio Barrack ressalvou que se trata de uma hipótese, não de uma conclusão de inteligência. Outra possibilidade citada por ele é uma falha de comunicação interna entre as Forças de Defesa de Israel, o Mossad e o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
O risco concreto estava no ar, no sentido literal. Segundo Barrack, os caças israelenses chegaram a cerca de 80 quilômetros da fronteira turca sem aviso prévio. As forças turcas não sabiam que os aviões se dirigiam àquela base e poderiam ter decolado seus próprios caças acreditando estar sob ataque. A Turquia é integrante da OTAN e tem o segundo maior exército da aliança. Ainda de acordo com o embaixador, a cúpula militar turca optou pela contenção máxima e não respondeu.

O governo israelense rejeita a leitura. O ministro da Defesa, Israel Katz, classificou as declarações de Barrack como cheias de imprecisões e disse que elas contradizem a posição do presidente americano Donald Trump.
Os Estados Unidos tentam agora transformar o susto em estrutura permanente. Barrack revelou que Israel e o governo sírio de Ahmed al-Sharaa já fizeram cinco rodadas formais de negociação com mediação americana, além de encontros informais, e montaram uma sala de coordenação conjunta em Amã, na Jordânia, para monitorar as linhas de fronteira e as zonas-tampão. Segundo ele, os dois lados também fecharam um cessar-fogo. Um mecanismo de desconflito que inclua a Turquia ainda está em construção, e é exatamente a falta dele, nas palavras do próprio embaixador, que quase transformou um bombardeio pontual no estopim de algo muito maior.

