Equipe ucraniana, formada por civis em 2022 e hoje integrada à defesa militar do país, diz ter desviado 58 de 59 mísseis hipersônicos Kinzhal interferindo em sinal de satélite. O caso aponta para a dependência global do GPS — base também do agronegócio e do sistema financeiro brasileiros.

Em outubro de 2025, a Rússia bateu seu próprio recorde mensal de bombas guiadas lançadas contra a Ucrânia: foram mais de 5.300 munições em um único mês, segundo o Ministério da Defesa ucraniano. Apesar do volume, uma parcela crescente delas tem caído fora do alvo. A explicação aponta para um sistema chamado Lima, desenvolvido por uma equipe ucraniana inicialmente formada por civis e que desde 2023 vem se tornando objeto de estudo de analistas militares dentro e fora da Ucrânia.

A “bomba burra” que virou guiada

A FAB-3000 é uma bomba projetada na União Soviética, dos anos 1950. Pesa cerca de 3 toneladas e carrega aproximadamente 1.400 kg de explosivo. Sozinha, é o que se chama de “bomba burra”: cai em queda livre depois de solta pelo avião, sem qualquer sistema de orientação. A Rússia tem milhares dessas armazenadas em depósitos desde a Guerra Fria.

Bomba FAB-500T equipada com kit UMPK sob a asa de um caça-bombardeiro russo Su-34.
Bomba FAB-500T equipada com kit UMPK sob a asa de um caça-bombardeiro russo Su-34.

O que mudou em 2023 foi a chegada do kit UMPK (sigla russa para “Módulo Universal de Planejamento e Correção”). Trata-se de um conjunto que se acopla à bomba antiga e adiciona três coisas: asas dobráveis que se abrem após o lançamento, um receptor de sinal de satélite e um pequeno computador que ajusta a trajetória. Com o kit, uma bomba antiga e barata vira uma arma de precisão capaz de planar por dezenas de quilômetros até o alvo.

Cada kit custa cerca de US$ 24 mil, segundo dados publicados em 2025 pelo blogueiro militar russo Fighterbomber. Para comparação, mísseis de cruzeiro russos custam milhões de dólares por unidade. Foi essa equação financeira — e não tecnológica — que tornou as bombas planadoras tão difíceis de conter.

Em fevereiro de 2024, a cidade ucraniana de Avdiivka, defendida desde 2014, caiu após meses de bombardeio com armas desse tipo.

Quem está por trás do Lima

O sistema é desenvolvido pela empresa ucraniana Cascade Systems e operado pela Nichna Varta (em português, “Vigília Noturna”), uma unidade hoje integrada à arquitetura de defesa aérea do país. Mas a equipe nasceu de outro jeito.

Em fevereiro de 2022, nos primeiros dias da invasão russa, um grupo de civis ucranianos sem treinamento militar — em sua maioria com experiência em negócios — alistou-se nas Forças de Defesa Territorial em Kyiv. Em entrevistas dadas ao site especializado Trench Art ao longo de 2025, o líder do grupo, identificado apenas pelo codinome “Alquimista”, relata que parte crítica do trabalho seguinte foi recuperar o conhecimento técnico de engenheiros aposentados que haviam projetado sistemas de navegação na era soviética e ainda dominavam o funcionamento interno das armas russas.

Os primeiros aparelhos foram pagos com recursos próprios da equipe. A primeira instalação aconteceu no início de 2023.

O ponto fraco escondido em qualquer arma guiada por satélite

Toda a precisão das armas planadoras russas depende de uma única coisa: sinal de satélite. As bombas se localizam usando os mesmos sistemas que um aplicativo de mapas no celular — GPS (americano), GLONASS (russo), Galileo (europeu) ou BeiDou (chinês). Sem esse sinal, voltam a depender apenas da chamada navegação inercial (cálculo de posição feito a bordo, com base em movimento e tempo decorrido), e a margem de erro cresce rapidamente quanto mais a bomba voa.

A antena que protege esse sinal nas armas russas chama-se Kometa, fabricada pela estatal VNIIR-Progress, em Cheboksary, capital da pequena república da Chuváchia, no centro da Rússia — a cerca de mil quilômetros da fronteira ucraniana. Versões iniciais da Kometa tinham apenas quatro pequenos receptores. Versões mais recentes, identificadas em destroços e analisadas pela inteligência militar ucraniana, chegam a 12, 16 e até 32 canais. Quanto mais canais, mais difícil interferir no sinal.

Como funciona o Lima

Diferente de bloqueadores tradicionais, que apenas tentam abafar o sinal real do satélite com ruído de rádio (técnica chamada jamming), o sistema Lima combina três métodos:

  • Bloqueio (jamming): emite ruído na mesma frequência usada pelos satélites.
  • Falsificação (spoofing): transmite um sinal falso, mais forte que o verdadeiro, fazendo o computador da bomba acreditar que está em outro lugar do mundo.
  • Ataque ao receptor: corrompe os dados técnicos que a munição precisa baixar do satélite para se localizar. Esse efeito permanece mesmo depois que a bomba sai da zona protegida pelo Lima.

Segundo Maksym Skoretskyi, chefe do Departamento de Guerra Eletrônica das Forças Terrestres ucranianas, o sistema pode desviar mísseis a distâncias de até 300 km.

Há um detalhe que viralizou em reportagens internacionais. Para provar internamente que o sistema funcionava — em um momento em que a defesa aérea ucraniana atribuía as quedas de drones russos a baterias antiaéreas e mísseis Patriot — o “Alquimista” programou o Lima para fazer com que qualquer aparelho com GPS dentro da zona de cobertura registrasse uma localização específica: Lima, capital do Peru, a cerca de 13 mil km de distância. Bastava ligar um GPS de mão para confirmar. Daí o nome.

O que se pode e o que não se pode afirmar sobre os números

Em abril de 2026, a Cascade Systems divulgou dados confirmados pelo comando da Vigília Noturna:

  • 58 de 59 mísseis hipersônicos Kinzhal lançados contra alvos protegidos teriam sido desviados desde a entrada em operação. O Kinzhal foi apresentado por Vladimir Putin em 2018 como “invencível”.
  • 33 mísseis de cruzeiro desviados no primeiro trimestre de 2026.
  • Quase 10 mil drones afetados no mesmo período, incluindo Shaheds de origem iraniana.
  • 98% das bombas planadoras teriam sido neutralizadas nas zonas cobertas.

Vale uma ressalva: esses números vêm da própria fabricante e dos operadores. A guerra eletrônica é, por natureza, difícil de auditar — não há “destroços” claros como em interceptações com mísseis Patriot, e bombas que erram o alvo podem ser explicadas por várias causas. Veículos como Forbes, Kyiv Independent e Eurasian Times reportaram os números com atribuição clara à Cascade. Thomas Withington, especialista do Royal United Services Institute (RUSI) ouvido pela revista alemã Der Spiegel, considera plausível que a Ucrânia esteja usando interferência em sinal de satélite contra as bombas planadoras, mas não confirma cifras específicas.

O que está dentro das bombas: tecnologia ocidental

Aqui está um ponto pouco discutido no debate brasileiro sobre a guerra. O relatório “The Makers of Ruin”, publicado em março de 2025 pela ONG ucraniana NAKO (Comissão Independente Anticorrupção), examinou destroços de UMPK recolhidos em locais de impacto e cruzou-os com mais de 600 mil registros aduaneiros de exportação de componentes eletrônicos para a Rússia.

A conclusão: cerca de 71% dos microcomponentes eletrônicos desses kits vêm de fabricantes baseados em países do bloco ocidental. Entre os 22 produtores identificados, 10 são americanos (incluindo Texas Instruments e Intel), 6 chineses, 4 suíços, 2 irlandeses (entre eles a Taoglas) e 2 japoneses.

Investigação separada da Inteligência Militar Ucraniana (DIU), publicada no projeto War & Sanctions, detalha que a antena Kometa-M12 — versão atual usada em kits UMPK-PD de longo alcance — incorpora um módulo GNSS suíço da U-blox, um circuito programável da americana Altera Corporation (subsidiária da Intel) e conversores da Analog Devices e Linear Technology.

A explicação para esse vazamento não é falta de sanções, mas falta de coordenação entre elas. Segundo a NAKO, a Ucrânia sancionou 85% desses fornecedores; os EUA, 73%; a União Europeia e a Suíça, pouco mais de 50%; o Reino Unido, apenas 7%. Os componentes circulam por Hong Kong, Turquia, Sérvia e Emirados Árabes, jurisdições que servem como pontes.

Por que isso interessa fora da Ucrânia — inclusive ao Brasil

Há três implicações que ultrapassam o conflito.

A primeira é sobre a fragilidade do sinal de satélite como infraestrutura civil. A guerra está mostrando, em tempo real, que esse sinal — base de boa parte da economia moderna — pode ser manipulado por equipamentos relativamente simples. No Brasil, a dependência é alta. Segundo dados apresentados na Agrishow 2026, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, 91% dos produtores brasileiros usam GPS e 70% adotam práticas de agricultura de precisão, em que máquinas se guiam por satélite com erro centimétrico. O sistema financeiro também depende do sinal de tempo do GPS para registrar a ordem de transações na bolsa. Em julho de 2025, o coronel da reserva da Força Aérea Júlio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais Brasileiras (AIAB), alertou em seminário público sobre a vulnerabilidade da ausência de um sistema nacional de Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT). O governo brasileiro instituiu, em 2025, um grupo técnico interministerial para estudar a viabilidade de um sistema próprio, mesmo regional.

A segunda implicação é sobre cadeias globais de produção militar. O fato de sanções aplicadas por dezenas de governos não impedirem componentes de chegar ao destino indesejado expõe um problema estrutural do comércio global, não uma falha pontual. Em 2025, em outro relatório conjunto, NAKO e a organização International Partnership for Human Rights (IPHR) identificaram 1.115 componentes eletrônicos ocidentais em destroços de caças russos Su-34 e Su-35.

A terceira é sobre o tipo de talento que decide guerras hoje. A história da Vigília Noturna, com civis recuperando conhecimento de engenheiros soviéticos aposentados, sugere que capital humano — e não plataformas tradicionais de defesa — vem se mostrando decisivo em conflitos contemporâneos.

A corrida segue

A Rússia tem reagido. A Inteligência Militar Ucraniana registrou em outubro de 2025 testes de combate de uma nova geração de bombas, UMPK-PD com motor a jato, capazes de alcance de 150 a 200 km, com maior resistência à guerra eletrônica e antenas de até 32 canais.

A Ucrânia, em paralelo, ataca fisicamente a fonte. A fábrica VNIIR-Progress, em Cheboksary, foi alvo confirmado de ataques em 9 de junho de 2025 (drones AN-196 Liutyi voando 975 km dentro da Rússia), 5 de julho de 2025, 26 de novembro de 2025, 18 de fevereiro de 2026 e novamente em 5 de maio de 2026, este último com mísseis de cruzeiro Flamingo de fabricação ucraniana, segundo declaração do presidente Volodymyr Zelensky no mesmo dia. É a mesma lógica vista em outros ataques de longo alcance ucranianos contra infraestrutura russa ao longo de 2025 e 2026: atingir o que sustenta o esforço militar adversário.

Como em qualquer corrida de guerra eletrônica, a vantagem é temporária. Cada lado adapta o que o outro neutraliza. O que a história do Lima talvez fixe, no entanto, é uma mudança de figura. Equipamento eletrônico relativamente barato, desenvolvido por uma equipe inicialmente composta por civis, está reduzindo a eficácia de armas que custaram décadas e bilhões para serem projetadas. E isso vale tanto para a Ucrânia em 2026 quanto para qualquer país que dependa, na economia civil, do mesmo tipo de sinal que essas armas dependem para funcionar.


Fontes: relatório “The Makers of Ruin” (NAKO, 2025); portal War & Sanctions (Inteligência Militar Ucraniana); Cascade Systems; Forbes; Kyiv Independent; Kyiv Post; Eurasian Times; Defense Express; Militarnyi; Trench Art; FDD Long War Journal; Royal United Services Institute (RUSI); Agrishow 2026; AIAB.