Um e-mail vazado do Pentágono na semana passada reabriu uma briga que parecia enterrada há 44 anos. Só que a Argentina, mesmo com a ajuda de Trump, não tem nem como começar.

A Argentina queria essas ilhas há quase 200 anos, perdeu uma guerra por elas em 1982 e agora ganhou um aliado inesperado em Donald Trump — só que, mesmo assim, não tem como dar nem o primeiro passo de uma invasão.

A briga não começou pelas ilhas. Começou pelo Irã.

Em abril, os Estados Unidos entraram em guerra contra o Irã. Trump pediu ajuda dos aliados europeus para usar suas bases. O Reino Unido recusou — o premier Keir Starmer não quis entrar nessa.

Trump ficou furioso. Chamou Starmer de “covarde” e disse que ele “não é Winston Churchill”.

Aí, na sexta-feira, 24 de abril, vazou um e-mail interno do Pentágono — uma lista de represálias aos aliados que não ajudaram contra o Irã. Uma delas pegou Londres de surpresa: os EUA poderiam parar de apoiar o Reino Unido na disputa pelas ilhas Falkland — as que a Argentina chama de Malvinas.

Espera, que ilhas são essas?

Um arquipélago no Atlântico Sul, a uns 500 km da costa argentina. Frio, ventoso, mais ovelhas que pessoas. Os britânicos administram o lugar desde 1833. A Argentina nunca aceitou e diz que as ilhas foram tomadas dela.

Em 1982, uma ditadura militar argentina decidiu invadir. Foi rápido, mas mal calculado. Margaret Thatcher, então premier britânica, mandou uma frota de guerra atravessar 13 mil km. Em 74 dias, os britânicos retomaram as ilhas. Morreram 255 soldados britânicos e cerca de 650 argentinos.

As ilhas seguiram britânicas. Em 2013, os próprios moradores votaram num referendo: 99,8% quiseram continuar britânicos. Só três pessoas votaram contra.

Então por que a Argentina ainda quer?

Por orgulho nacional — e por petróleo e pesca nas águas em volta.

O presidente atual, Javier Milei, é amigo pessoal de Trump e repete que vai recuperar as ilhas. Não é só fala: em dezembro, a Argentina recebeu os primeiros 6 dos 24 caças F-16 que comprou da Dinamarca por US$ 300 milhões — com aval dos EUA. E fechou carta de intenção com a França para comprar três submarinos.

A resposta militar: ela não consegue. Nem perto.

A Argentina de 2026 está muito mais fraca militarmente do que a de 1982 — e a de 1982 perdeu.

Em 1982, a Argentina tinha porta-aviões, submarinos, mísseis Exocet (que afundaram dois navios britânicos na guerra) e uma frota de caças com reabastecimento aéreo. Era uma das maiores forças militares da América do Sul.

Disparo bem-sucedido da nova versão do míssil Exocet pela Marinha Francesa em 2023.
Disparo bem-sucedido da nova versão do míssil Exocet pela Marinha Francesa em 2023.

Hoje, depois de 40 anos de descaso e crise econômica, a Argentina:

  • Não tem porta-aviões.
  • Não tem nenhum submarino operacional — os dois que existem estão parados desde a tragédia do ARA San Juan, em 2017.
  • Não tem mísseis modernos capazes de afundar navios britânicos.
  • Não tem como reabastecer caças no ar durante uma missão longa.
  • Os F-16 recém-chegados ainda estão sendo testados; pilotos em retreinamento.
  • O orçamento de defesa é menos de 1% do PIB.

E como a Argentina invadiria 500 km de mar aberto sem submarino, sem porta-aviões e sem reabastecimento? Não dá.

E o lado britânico está mais forte do que em 1982

Em 1982, os britânicos tiveram que reconquistar as ilhas porque não tinham base lá. Hoje têm.

Em Mount Pleasant, base permanente inaugurada em 1985, ficam:

  • 4 caças Eurofighter Typhoon em alerta 24 horas;
  • O sistema antiaéreo Sky Sabre, moderno, alcance de até 480 km;
  • Entre 1.000 e 2.000 militares britânicos;
  • Pista grande o suficiente para receber aviões direto do Reino Unido em poucas horas.

E se a coisa esquentasse mesmo, Londres pode mobilizar dois porta-aviões (Queen Elizabeth e Prince of Wales) com caças F-35B de 5ª geração — algo que não existia em 1982.

Então o que muda com Trump?

Militarmente, nada. A Argentina não vai invadir, não importa o que Trump tuíte.

O que muda é diplomático. Por mais de 40 anos, os EUA bancaram silenciosamente o Reino Unido nessa disputa. Em 1982, Reagan ajudou os britânicos com inteligência de satélite, combustível e mísseis.

Se Trump retira esse apoio, ele não entrega as ilhas. Ele abre uma janela na mesa de negociação: o assunto volta para os foros internacionais, fragiliza o Reino Unido na ONU, dá moral à reivindicação argentina.

O que esperar daqui pra frente

Não vai ter guerra. A Argentina não tem como, e o Reino Unido não vai recuar.

O que pode acontecer é uma pressão diplomática crescente — e isso depende de uma única coisa: o humor de Donald Trump. Um post no Truth Social, uma frase numa entrevista, e a discussão sobre soberania das Malvinas, que estava praticamente encerrada, volta para o centro do debate internacional.

Para a Argentina, é a melhor janela desde 1982. Para o Reino Unido, é o sinal mais amargo de que a era em que Washington apoiava aliados ocidentais “no automático” acabou.

Ironicamente, Buenos Aires tem mais chance de chegar perto das Malvinas pela conversa do que jamais teve pelas armas. E isso depende menos de Milei e mais do humor de Trump.