O terminal incendiado movimenta mais de US$ 31 bilhões por ano para Moscou — e é de lá que saem os navios que driblam as sanções ocidentais.
Existe um porto no noroeste da Rússia que poucos conhecem pelo nome, mas
que é indispensável para a continuidade da guerra na Ucrânia. Por ele passa
cerca de 60 milhões de toneladas de petróleo por ano. É de lá que saem os
navios da chamada frota sombra — a rede clandestina de tanqueiros que a
Rússia usa para vender petróleo driblando as sanções ocidentais. E é por esse
porto que entram dezenas de bilhões de dólares que pagam soldados, mísseis
e a manutenção de uma invasão que já dura mais de quatro anos. Na madrugada
de 23 de março de 2026, esse porto pegou fogo.
O alvo era Primorsk, no Oblast de Leningrado — o maior hub de exportação
de petróleo bruto russo no Mar Báltico, operado pela estatal Transneft. O que
tornou o ataque diferente de tudo que a Ucrânia havia feito antes não foi
apenas a escolha do alvo. Foi a distância: mais de 1.000 quilômetros da
fronteira ucraniana, bem dentro do território russo, longe de qualquer frente
de combate. E foi a arma usada para chegar lá.
Por que Primorsk é insubstituível para Putin
O terminal de Primorsk não é uma instalação militar. É o coração financeiro
da guerra russa.
Processando cerca de 60 milhões de toneladas de petróleo por ano, segundo
o Estado-Maior ucraniano e dados do Euromaidan Press, o porto movimenta mais de 419 milhões de barris anuais. Com o petróleo russo sendo vendido com desconto de cerca de US$ 25 por barril em relação ao preço de mercado — conforme a Euronews, com base em dados de dezembro de 2025 — a estimativa é que Primorsk sozinho seja responsável por mais de US$ 31 bilhões de receita para a Rússia neste ano.

É também o principal ponto de operação da frota sombra russa — a rede de
navios envelhecidos e frequentemente sem seguro que Moscou montou para
contornar as sanções ocidentais. Segundo o Geopolitical Monitor, com base em dados do Instituto de Economia de Kyiv, essa frota responde por 89% das exportações russas de petróleo bruto e gerou cerca de US$ 9,4 bilhões em receita adicional apenas em 2024. Cada navio que opera a partir de Primorsk transporta entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões em petróleo por viagem. Cada dia de porto fechado é dinheiro que não volta.
Quatro tanques em chamas, não um
O governador do Oblast de Leningrado, Alexander Drozdenko, admitiu o ataque
em comunicado no Telegram, descrevendo danos a “um tanque de combustível.”
As imagens de satélite revelaram outra escala.
Segundo a Radio Free Europe/Radio Liberty, ao menos quatro tanques de
armazenamento estavam em chamas. O Bloomberg confirmou os danos com base em dados do sistema FIRMS, da NASA, que identificou focos de incêndio tanto no terminal de petróleo bruto quanto no de produtos refinados — gasolina, diesel e querosene de aviação. As operações de carregamento foram imediatamente suspensas.

O Kyiv Independent confirmou que o porto seguia paralisado até o meio-dia do dia 23. A Reuters reportou que o porto de Ust-Luga, cerca de 80 quilômetros ao sul e responsável por exportar aproximadamente 700.000 barris por dia, também suspendeu operações. Na mesma madrugada, o Estado-Maior ucraniano confirmou um terceiro alvo: a refinaria Bashneft-Ufaneftekhim, em Ufa, a 1.400 quilômetros da fronteira, que abastece as forças militares russas com combustível e lubrificantes.
O míssil que a Ucrânia não precisa pedir para ninguém usar
Chegar a Primorsk com força destrutiva suficiente para incendiar quatro tanques
exigiu algo diferente dos drones convencionais que a Ucrânia opera há anos.
A hipótese mais sólida, levantada pelo The Telegraph com base no perfil dos
danos, aponta para o FP-5 Flamingo — um míssil de cruzeiro desenvolvido
pela startup ucraniana Fire Point e revelado publicamente em agosto de 2025.
O Flamingo carrega uma ogiva de 1.150 quilogramas de explosivo e alcança
até 3.000 quilômetros — o suficiente para atingir praticamente qualquer ponto
do território russo a partir do solo ucraniano. É uma capacidade destrutiva
muito superior à de um drone convencional, que carrega uma fração desse
payload. O míssil entrou em combate pela primeira vez em agosto de 2025,
quando ao menos três unidades atingiram uma instalação do Serviço Federal
de Segurança russo na Crimeia.

O que muda o cálculo estratégico é a origem da arma: o Flamingo é
inteiramente fabricado em território ucraniano pela Fire Point, uma startup
fundada por pessoas sem formação militar — vindas da construção civil, do
design de jogos e da arquitetura. Ao contrário dos mísseis Storm Shadow
britânicos ou ATACMS americanos, Kiev não precisa de autorização de nenhum
parceiro para utilizá-lo. Em meados de março de 2026, a empresa afirmava
produzir três unidades por dia.
O problema sem solução fácil para Moscou
Putin sabe agora que a Ucrânia pode atingir Primorsk com armas fabricadas
por ela mesma, capazes de devastar a infraestrutura do porto, sem depender
de nenhum aliado ocidental. A questão que Moscou precisa responder não é
técnica — é estratégica: vale a pena continuar usando Primorsk sabendo que
ele pode ser incendiado a qualquer momento?
Se continuar, o porto vira alvo recorrente. Se recuar, perde não apenas a
receita, mas a presença no Báltico que ancora a operação da frota sombra —
o sistema que, segundo o UkraineWorld, gera cerca de US$ 100 bilhões por ano
em exportações russas, valor que rivaliza com toda a ajuda militar ocidental
à Ucrânia. Não há resposta confortável para Moscou. E a Ucrânia, pela primeira
vez, tem o alcance e a autonomia para continuar fazendo a pergunta.
Fontes consultadas: Kyiv Independent, Bloomberg, Reuters, Euromaidan Press,
Radio Free Europe/Radio Liberty, The Moscow Times, Geopolitical Monitor,
UkraineWorld, Kyiv Post, Al Jazeera
