Após rejeitar ajuda aliada no início da guerra, presidente dos EUA muda o tom e pressiona países a enviar navios de guerra ao estreito mais estratégico do mundo para o petróleo. A resposta foi de silêncio e recusa.

A Ameaça

No domingo, 15 de março, o presidente Donald Trump elevou o tom contra aliados históricos em entrevista ao Financial Times e em declarações a bordo do Air Force One. A mensagem soou como um ultimato.

“Estou exigindo que esses países venham e protejam o seu próprio território, porque é o território deles”, disse Trump. Em seguida, lançou a ameaça direta à aliança atlântica: “Será muito ruim para o futuro da OTAN” se os países não enviarem apoio militar para reabrir o Estreito de Ormuz.

Trump também publicou no Truth Social pedindo que China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido “e outros” enviem navios de guerra à região. “Vamos lembrar”, disse o presidente, numa referência clara aos países que hesitarem.

A resposta dos aliados foi de rejeição quase unânime.


O Centro Nervoso do Mercado Global de Energia

O Estreito de Ormuz é um corredor marítimo entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã. Por ali passa aproximadamente 20% do petróleo comercializado no mundo. Quem controla Ormuz tem poder de pressionar não apenas os países do Golfo, mas também a Europa e a Ásia.

Desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, Teerã respondeu bloqueando o estreito para navios americanos e aliados. As consequências foram rápidas e graves.

Um barco rápido da Marinha iraniana próximo ao Estreito de Hormuz. Fonte: NurPhoto.

As exportações diárias de petróleo do Golfo caíram mais de 60% na semana de 15 de março em relação a fevereiro, segundo dados da plataforma de análise Kpler. O petróleo Brent ultrapassou US$ 104 por barril. O crude americano também cruzou a marca dos US$ 100. Cerca de mil petroleiros estão parados, sem conseguir atravessar o estreito.


A Guinada de Trump

A exigência por ajuda internacional representa uma virada de 180 graus na postura de Trump.

Sete dias após o início da guerra, quando o Reino Unido considerava enviar dois porta-aviões — incluindo o HMS Prince of Wales — para a região, Trump publicou nas redes sociais: “Não precisamos mais deles. Mas vamos lembrar. Não precisamos de pessoas que entram em guerras depois que já vencemos.”

No dia 9 de março, Trump afirmava que era “uma honra” trabalhar para proteger o estreito, insistindo que os Estados Unidos não precisavam da rota por terem acesso próprio ao petróleo. Na sexta-feira, 14 de março, quando a Ucrânia se ofereceu para ajudar na defesa contra drones iranianos, Trump disse publicamente: “Não precisamos de ajuda em defesa de drones.” No sábado, 15, repetiu o mesmo à NBC News.

Menos de 24 horas depois, o mesmo presidente passou a exigir esse apoio em tom público e agressivo.

Para a CNN, a mudança de postura é “a mais recente evidência de que a guerra está longe de terminar”, ao contrário do que Trump vinha repetindo.


A Resposta dos Aliados

A reação dos países foi de cautela ou recusa direta.

O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, foi o mais incisivo: “Esta não é a nossa guerra. Nós não a iniciamos.” Berlim declarou que o conflito “não tem nada a ver com a OTAN”. A Itália sinalizou relutância em expandir missões navais para o Estreito. Japão, Austrália, Espanha, Irlanda e Polônia descartaram o envio de embarcações.

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer disse estar trabalhando com aliados para “restaurar a liberdade de navegação”, mas foi claro: o Reino Unido “não será arrastado para a guerra mais ampla”. A única contribuição que Londres considera é o envio de drones caçadores de minas — não navios de guerra.

A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, descartou ampliar a missão naval europeia Aspides para incluir o Estreito de Ormuz. “A Europa não tem interesse em uma guerra sem fim”, disse.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, rebateu: os países aliados “estão se beneficiando grandemente do esforço militar dos Estados Unidos contra o Irã” e por isso deveriam contribuir para manter o estreito aberto.


O Problema que o Poder Aéreo Não Resolve

Os bombardeios americanos e israelenses degradaram de forma significativa a capacidade militar convencional iraniana. Trump declarou, na segunda-feira, 16 de março, que o Irã reduziu em 90% os lançamentos de mísseis balísticos e em 95% os ataques com drones desde o início do conflito.

Mas destruir alvos em terra é diferente de garantir a passagem segura de navios comerciais pelo estreito.

O Irã preserva meios assimétricos baratos e eficazes: drones, mísseis de curto alcance, lanchas rápidas e minas. Para gerar efeito estratégico, basta manter o ambiente inseguro, atacar infraestruturas petrolíferas e forçar o mercado a operar no medo. O Irã não precisa afundar uma grande frota para paralisar o comércio global de energia.

Foi exatamente esse padrão que apareceu nos últimos dias. Na segunda-feira, 16 de março, um drone iraniano atingiu um depósito de combustível nas proximidades do Aeroporto Internacional de Dubai — o mais movimentado do mundo —, provocando incêndio. O aeroporto suspendeu voos temporariamente. Não houve feridos. Foi o quarto incidente com drones no local desde o início do conflito.

É possível ver fumaça preta se espalhando após o ataque no aeroporto de Dubai em 16 de março de 2026. Foto via X/@A_K_Mandhan.

Ataques semelhantes atingiram a zona industrial de Fujairah e o aeroporto internacional do Kuwait. A defesa aérea dos Emirados Árabes interceptou mais de 300 mísseis balísticos e 1.600 drones desde 28 de fevereiro.


Por Que os Aliados Hesitam

Para muitos governos europeus, a resistência não é só falta de meios militares. É a ausência de uma estratégia política clara para o período pós-conflito.

Reabrir o Estreito de Ormuz não é simplesmente varrer minas ou escoltar navios. Exige criar condições para que o Irã não consiga mais ameaçar aquela rota. Isso pode demandar uma escalada muito maior do que a que foi comunicada aos aliados antes do início dos ataques.

“A resposta europeia deve ser: a forma de resolver o problema é acabar com a guerra, não entrar nela”, disse Sven Biscop, diretor do Instituto Egmont, na Bélgica.

A Espanha foi mais enfática. O chanceler José Manuel Albares pediu que a Europa use a voz da “razão, da diplomacia e da negociação diante da guerra”.

Também pesa o histórico recente. Os ataques foram lançados principalmente em coordenação com Israel, sem consulta prévia aos parceiros europeus da OTAN. Agora, Trump pede que esses mesmos países compartilhem os custos e os riscos de uma guerra em que não tiveram voz. O senador democrata Chuck Schumer resumiu o impasse no Senado: “Trump criou uma bagunça no Oriente Médio e claramente não tem um plano para encerrar isso.”


O Que Essa Crise Mostra

A ameaça ao futuro da OTAN é um sinal de que a campanha militar entrou em uma fase mais longa e cara do que a Casa Branca previa. A narrativa de vitória rápida que Trump repetiu nas primeiras semanas contrasta com o pedido urgente por ajuda que passou a fazer agora.

Os Estados Unidos e Israel conseguiram degradar fortemente o aparato militar convencional iraniano. Mas isso não equivale ao controle do teatro estratégico. O Irã, mesmo enfraquecido no plano convencional, retém a capacidade de travar o conflito onde mais dói: na energia, no comércio, nos seguros e na estabilidade regional.

Enquanto o Estreito de Ormuz permanecer bloqueado, a guerra — independentemente do número de alvos destruídos em território iraniano — não estará encerrada.


Fontes: NPR, NBC News, CNN, Al Jazeera, Financial Times, Fortune, PBS NewsHour, Time, Washington Post, CNBC.