O Paquistão declarou guerra aberta contra o Talibã afegão, marcando uma ruptura histórica entre o criador e sua criação. A decisão veio após décadas de proteção que o governo paquistanês ofereceu ao grupo fundamentalista, numa reviravolta que exemplifica como alianças geopolíticas podem se transformar em conflitos devastadores.

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Ataques Coordenados Marcam Início do Conflito

Na madrugada de 27 de fevereiro de 2025, o Paquistão lançou ataques aéreos contra complexos militares no Afeganistão, onde combatentes do TTP (Tehrik-e-Taliban Pakistan) eram treinados para executar atentados em território paquistanês. As imagens revelaram a destruição completa das instalações, com indícios de que todos os terroristas presentes foram eliminados.

Talibã procura vítimas após ataque aéreo do Paquistão atingir área residencial em Nangarhar, Afeganistão. (AFP)

O conflito escalou quando, em resposta aos primeiros ataques paquistaneses de 22 de fevereiro, o Talibã lançou uma série coordenada de ataques contra bases militares do Paquistão ao longo da fronteira, nas províncias de Kunar, Nangarhar, Nuristan, Paktia e Paktika, na noite de 26 de fevereiro.

A Origem da Ruptura

A raiz do conflito remonta aos anos 1990, quando o Paquistão criou e financiou o Talibã como parte de sua “doutrina da profundidade estratégica”. O objetivo era estabelecer um governo aliado no Afeganistão que servisse como zona de proteção em caso de conflito com a Índia.

A principal agência de inteligência paquistanesa treinou, armou e financiou o Talibã desde 1994. Por anos, o plano funcionou conforme esperado. Porém, após o retorno do Talibã ao poder em 2021, o grupo passou a abrigar o TTP – uma organização terrorista com 30 a 35 mil membros ativos, segundo a ONU, dedicada a derrubar o governo do Paquistão.

TTP: O Inimigo Interno

O Tehrik-e-Taliban Pakistan representa uma ameaça existencial para o Paquistão. O grupo compartilha ideologia com o Talibã afegão, mas tem como objetivo específico estabelecer um regime extremista em território paquistanês. Utilizando bases no Afeganistão, o TTP executou dezenas de ataques terroristas, incluindo bombardeios em mercados, estações de trem e bases militares.

Militantes armados do Tehrik-i-Taliban Pakistan posam ao lado de um veículo blindado capturado em Landi Kotal, na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, em 2008. (AFP/Getty Images)

Pelo menos 26 pessoas morreram em um dos ataques mais recentes do TTP, quando uma bomba explodiu em uma estação de trem na fronteira do Paquistão com o Irã. O governo paquistanês exigiu repetidamente que o Talibã entregasse os líderes do TTP, mas foi sistematicamente ignorado.

Operação Righteous Fury

A resposta militar do Paquistão, batizada de “Operação Righteous Fury”, ultrapassou todas as escaladas anteriores ao atacar não apenas as províncias fronteiriças, mas também Cabul, a capital afegã, e Kandahar, cidade onde reside o líder supremo do Talibã.

Veículos como New York Times, CNN e Foreign Policy confirmaram que os ataques a Kandahar tiveram como alvo instalações a menos de 1 km da residência de Hibatullah Akhundzada, o líder supremo do Talibã. Esta foi a primeira tentativa documentada de um país eliminar diretamente o líder de outro governo.

Nova Capacidade Militar do Talibã

O conflito revelou uma evolução preocupante: o Talibã utilizou drones de guerra pela primeira vez, atacando três locais dentro do território paquistanês. Anteriormente, o grupo apenas possuía drones civis sem capacidade militar real. A origem destes novos equipamentos permanece desconhecida.

Desequilíbrio de Forças e Estratégia de Guerrilha

Numericamente, o Paquistão possui esmagadora superioridade militar:

  • 660.000 soldados ativos contra 75.000 do Talibã
  • Orçamento militar de 9 bilhões de dólares anuais contra 145 milhões
  • 2.600 tanques e 59.000 veículos blindados
  • Arsenal de 170 armas nucleares

Porém, o Talibã emprega táticas de guerrilha ensinadas pelo próprio Paquistão nos anos 1980, durante a guerra contra a União Soviética. A estratégia consiste em evitar confrontos diretos, realizando ataques surpresa e emboscadas para desgastar o inimigo ao longo de anos.

Crise Econômica Agrava Situação

O Paquistão enfrenta uma severa crise financeira, dependendo de um acordo de resgate de 7 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional. A guerra prolongada representa um fardo econômico insustentável para um país já em dificuldades, especialmente considerando que guerras de guerrilha são historicamente caras e duradouras.

A situação se complica ainda mais com a instabilidade regional no Oriente Médio, que afeta o preço e fornecimento de petróleo através do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo.

Tentativas de Mediação

China, Nações Unidas e Reino Unido já solicitaram que ambos os lados cessem os ataques e retomem negociações. O próprio porta-voz do Talibã manifestou interesse em resolver o conflito através do diálogo, mas o Paquistão rejeitou qualquer negociação.

O ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Mohammed Asif, declarou que o país “esgotou a paciência com o Talibã” e está em “guerra aberta”, descartando qualquer diálogo futuro com o regime afegão.

Implicações Regionais

O Paquistão acusou o Talibã de servir aos interesses da Índia, afirmando que o Afeganistão se tornou uma “colônia indiana”. Se a Índia for arrastada para o conflito, a situação pode evoluir para uma crise regional de proporções muito maiores.

Este conflito exemplifica um padrão histórico onde países tentam controlar grupos que ajudaram a criar, apenas para ver essas “criações” se voltarem contra seus criadores. O mesmo ocorreu com a União Soviética e os mujahideen, e agora se repete entre Paquistão e Talibã.