O termo ‘aiatolá’ voltou a dominar as manchetes internacionais, evocando imagens de clérigos que ditam as regras de uma nação inteira. Mas o que significa exatamente esse título e como os aiatolás conseguiram transformar o Irã em uma teocracia?

O Significado e Origem do Título Aiatolá

A palavra aiatolá vem do árabe ‘ayatulá’, que significa literalmente ‘sinal de Deus’ ou ‘reflexo de Deus’. É um título honorífico exclusivo do islã xiita, mais especificamente da vertente duodecimana, que acredita na linhagem de 12 imãs descendentes de Ali, genro e primo do profeta Maomé.

Ao contrário do catolicismo, que possui uma estrutura hierárquica rígida com papa, cardeais, bispos e padres, o clero xiita não tem uma hierarquia institucional oficial. O que existe é uma hierarquia de deferência, onde o reconhecimento de um clérigo depende de sua reputação acadêmica, quantidade de seguidores e respeito dos pares.

Iranianos saudam dois dos Grandes Aitolás do país

A Hierarquia do Clero Xiita

  • Mulá: Clérigo de nível básico que conduz orações e ensina nas comunidades locais
  • Hojjat al-Islam: Clérigo de nível intermediário com formação teológica avançada
  • Aiatolá: Jurista islâmico sênior, reconhecido como autoridade em direito islâmico
  • Grande Aiatolá: Marja taqlid, uma fonte de emulação cujas interpretações são seguidas por milhões

Ninguém nomeia um aiatolá oficialmente. O título é conquistado organicamente através de décadas de estudo em seminários, publicação de tratados jurídicos, conquista de seguidores e reconhecimento de outros clérigos.

A Evolução Moderna do Título

Apesar das raízes do clero xiita remontarem a séculos, o título aiatolá é surpreendentemente recente, começando a ser usado amplamente apenas no século XX, principalmente a partir dos anos 1940 e 1950.

Originalmente reservado a pouquíssimos clérigos proeminentes, o título era raro e extremamente prestigioso. Após a Revolução Islâmica de 1979, houve uma ‘inflação de títulos religiosos’, com o novo regime financiando massivamente os seminários e tornando a carreira religiosa atraente para jovens iranianos.

Iranianos tomam as ruas em 1979

Como os Aiatolás Chegaram ao Poder

A Base Histórica do Poder Religioso

O Irã tornou-se oficialmente xiita no século XVI, quando a dinastia Safávida adotou o islã xiita duodecimano como religião de estado – uma estratégia geopolítica para se diferenciar do Império Otomano sunita.

Os safávidas importaram clérigos xiitas do Líbano, Iraque e Bahrein, financiaram seminários e criaram uma simbiose entre o trono e o clero que moldaria a identidade iraniana pelos séculos seguintes.

O Conflito com a Modernização

Quando Reza Khan tomou o poder em 1921 e fundou a dinastia Pahlavi, iniciou um projeto agressivo de modernização secular. Ele restringiu o poder dos clérigos, confiscou terras de instituições religiosas, proibiu o véu e reformou o sistema judiciário.

Seu filho, Mohammad Reza Pahlavi (o último xá), continuou esse processo. Em 1963, lançou a ‘Revolução Branca’, incluindo redistribuição de terras do clero, direito de voto para mulheres e igualdade jurídica matrimonial.

Ruhollah Khomeini e a Revolução Teórica

Foi nesse contexto que surgiu Ruhollah Khomeini, um clérigo cada vez mais crítico ao xá. Em 1963, declarou publicamente que o xá estava promovendo a destruição do islã no Irã. Foi preso e exilado em 1964.

Uma rara foto de Ruhollah Khomeini

Durante o exílio, principalmente em Najaf (Iraque), Khomeini desenvolveu o conceito de ‘Velayat-e Faqih’ (tutela do jurista islâmico), uma ideia revolucionária até para o clero xiita.

A Teoria do Velayat-e Faqih

Na tradição duodecimana, a autoridade suprema pertence aos 12 imãs descendentes de Ali. O 12º imã teria entrado em ocultação no ano 939 e retornaria no fim dos tempos. Até lá, os clérigos teriam papel de orientação espiritual, mas nunca de governo direto.

Khomeini argumentou que, na ausência do 12º imã, a governança deveria ser exercida por um jurista islâmico de reconhecida competência. Essa ideia era controversa até entre os próprios aiatolás.

A Revolução Iraniana de 1979

A revolução iraniana foi um dos eventos políticos mais inesperados do século XX. O Irã não estava em guerra, não enfrentava crise econômica catastrófica e era relativamente próspero graças ao petróleo.

Mas a prosperidade mascarava problemas profundos: repressão brutal pela SAVAK (polícia secreta), desigualdade social crescente, modernização imposta de cima para baixo e a percepção de que o xá era uma marionete dos Estados Unidos.

Khomeini, do exílio na França, distribuía mensagens em fitas cassete pelos bazares e mesquitas do Irã, oferecendo uma narrativa poderosa: o islã como libertador, o xá como vassalo do Ocidente corrupto e a revolução como dever religioso.

A Tomada do Poder

Em janeiro de 1979, o xá fugiu do Irã. Em fevereiro, Khomeini retornou, recebido por milhões nas ruas. A revolução não foi feita apenas por religiosos, mas reuniu comunistas, liberais, nacionalistas, estudantes e feministas.

Porém, assim que chegou ao poder, Khomeini e seus seguidores eliminaram sistematicamente todos os aliados temporários. O referendo de abril de 1979 aprovou a república islâmica teocrática, e a constituição de dezembro consagrou o Velayat-e Faqih como princípio fundador.

A Estrutura do Poder Teocrático

No topo do regime está o Líder Supremo, que não é eleito pelo povo, mas escolhido pela Assembleia de Especialistas – 88 clérigos eleitos pelo povo, mas cujas candidaturas precisam ser aprovadas pelo Conselho dos Guardiões, inteiramente controlado pelo Líder Supremo.

Abaixo existe um presidente eleito por voto popular, mas com poderes limitados. Há parlamento e governadores, dando aparência de democracia, mas o Conselho dos Guardiões pode vetar qualquer lei e desqualificar qualquer candidato.

O Líder Supremo controla diretamente o judiciário, a Guarda Revolucionária, a mídia estatal e a política externa, exercendo poder absoluto sobre todas as instituições do país.

A Perpetuação do Sistema

Quando Khomeini morreu em 1989, Ali Khamenei foi escolhido como sucessor. A Constituição foi emendada para tornar a autoridade do Líder Supremo ainda mais absoluta, removendo a exigência de que fosse um grande aiatolá.

Khamenei não era um grande aiatolá quando assumiu, sendo elevado politicamente a uma posição religiosa que não havia conquistado pelo caminho tradicional. O sistema criado pelos aiatolás transformou o Irã em uma teocracia onde o poder religioso se sobrepõe a todas as outras instituições, demonstrando como um grupo de clérigos conseguiu dominar completamente uma nação milenar.