Os Estados Unidos declararam a intenção de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A documentação foi concluída pelo Departamento de Justiça e de Estado, passou pela análise de outras agências do governo americano e aguarda apenas aprovação final antes de seguir para o Congresso.

Estratégia ampla contra o narcotráfico latino-americano

Desde o retorno de Donald Trump ao poder, mais de 25 organizações estrangeiras foram incluídas na lista de terroristas, incluindo seis cartéis mexicanos, o Tren de Aragua da Venezuela e o Cartel de Los Soles. O PCC e o CV fazem parte de uma estratégia mais ampla de reclassificar o narcotráfico latino-americano como questão de terrorismo.

Os critérios americanos para classificação como terrorista exigem três elementos: que a organização seja estrangeira, esteja envolvida em atividades terroristas ou tenha capacidade para tal, e represente ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

Evidências contra as facções brasileiras

Em março de 2025, 18 brasileiros ligados ao PCC foram acusados de tráfico de armas e fentanil em Massachusetts, operando em cidades como Boston através de uma célula local chamada Primeiro Comando de Massachusetts.

A Polícia Federal confirma que o PCC opera em 22 dos 27 estados brasileiros e mantém ramificações em vários países, incluindo Portugal na Europa.

Países vizinhos já tomaram medidas

O Paraguai classificou o PCC e o CV como terroristas em outubro de 2025 e mobilizou as forças armadas para a fronteira. A Argentina também adotou a mesma classificação.

Consequências práticas da classificação

A classificação como organização terrorista acarreta consequências severas:

  • Congelamento de ativos financeiros nos Estados Unidos
  • Bloqueio do acesso ao sistema financeiro americano
  • Proibição de apoio material por cidadãos ou empresas americanas
  • Sanções contra empresas indiretamente ligadas aos grupos
  • Autorização para o presidente usar forças militares sem consultar o Congresso

O Tesouro americano já alertou empresas sobre riscos ampliados de operar em países onde cartéis classificados como terroristas estão presentes, o que pode afetar investimentos e relações comerciais entre Estados Unidos e Brasil.

Precedentes de ação militar americana

Os Estados Unidos já demonstraram disposição para ação militar contra organizações classificadas como terroristas. Na operação Southern Spear, desde setembro de 2025, foram realizados pelo menos 45 ataques contra embarcações no Caribe e Pacífico, resultando em 157 mortes de traficantes.

Foto da Marinha dos EUA, set/2025: Um helicóptero UH-1Y Huey do Esquadrão VMM-263 dispara um canhão rotativo GAU-17 durante exercício de tiro real no Mar do Caribe.

Em dezembro de 2025, atacaram uma instalação portuária na floresta amazônica venezuelana. Na Colômbia, intensificaram ataques contra barcos na costa após classificação de grupos locais como terroristas.

Riscos para o Brasil

Apesar do Brasil ser a maior economia da região com as maiores forças armadas da América Latina, existem cenários de risco:

  • Cooperação direta de agentes americanos com governos estaduais
  • Sanções em cascata atingindo empresas brasileiras
  • Restrições comerciais e de investimentos

Por que o Brasil não classifica essas facções como terroristas

A lei antiterrorismo brasileira de 2016 exige motivação ideológica, religiosa ou discriminatória, além da finalidade de provocar terror social generalizado. O PCC e CV, apesar da brutalidade, têm apenas motivação econômica para controlar mercados ilícitos e territórios.

Por isso, pela definição brasileira, são organizações criminosas, não terroristas.

Posição brasileira sobre terrorismo internacional

O Brasil não classifica Hamas e Hezbollah como terroristas, ao contrário dos Estados Unidos, União Europeia e outros países. A justificativa é seguir a lista do Conselho de Segurança da ONU e manter posição de mediador em conflitos internacionais.

Há também considerações sobre a grande comunidade libanesa no Brasil e o fato do Hezbollah integrar formalmente o governo libanês.

Consequências para as relações bilaterais

A classificação não seria mera formalidade, mas traria sanções econômicas, restrições comerciais e possibilidade de uso de força militar sem coordenação com o governo brasileiro. O governo brasileiro tenta resistir, mas o espaço de manobra diminui.

A ironia é que o Brasil, que sofre diretamente com a violência dessas facções, pode ser enquadrado pelos Estados Unidos como parte do problema, não da solução.